Ann
Margareth Sharp é uma das principais personagens
do IAPC, e por muitos anos colaborou com o fundador Mathew
Lipman. Ela escreveu inúmeras histórias filosóficas
para crianças, além de contribuir em muitos
dos manuais para os professores.
Saeed Naji é pesquisadora do Instituto de estudos
culturais e humanos no Tehran, Irã, http://www.ihcs.ac.ir/
Naji entrevistou Ann Sharp na conferência em São
Cristovão, México, no dia 26 de Fevereiro
de 2004. Visite o website do Irã www.p4c.ir
1-Por que as novelas filosóficas mostram-se
mais eficazes na educação do que os textos
filosóficos?
John Dewey foi muito feliz em lembrar aos educadores que
existe uma grande diferença entre o aspecto lógico
e o psicológico do desenvolvimento e da apresentação
da disciplina.
O texto filosófico é uma tentativa de apresentar
a filosofia de uma maneira lógica e inteligível
desprovida da experiência. A novela filosófica,
enquanto texto, é uma tentativa de motivar crianças
a investigar conceitos e procedimentos filosóficos
conectados com experiências infantis. Em outras palavras,
a narrativa apresenta a filosofia juntamente com as experiências
de personagens fictícios.
As crianças gostam das histórias e através
delas podem ser incentivadas a pensar e indagar se a história
está conectada as suas experiências diárias
podendo,então, focar em um tópico e a uma
situação que as intriguem e que seja contestador.
Quando a história é dialogada entre as crianças
ela se torna um instrumento pelo qual elas, mais do que
os adultos, tem o domínio da situação.
Diferente dos textos tradicionais, trata-se de uma história
que é utilizada para definir o que será investigado
e dialogado.
Porém, existe um aspecto importante no que tange
a utilização das novelas filosóficas
no trabalho com crianças. Nós não podemos
achar que as crianças já entram na sala de
aula com as habilidades filosóficas desenvolvidas.
Elas precisam aprendem as etapas de uma investigação
filosóficas, e nesse sentido, as novelas filosóficas,
são um ótimo exemplo, já que as crianças
se envolvem emocional e intelectualmente na vida dos personagens
que servem de modelo neste processo de investigação.
Esses personagens não são como os heróis,
heroínas e vilões que encontramos nos clássicos
da literatura infantil, são crianças. Essas
crianças fictícias têm o desafio de
mostrar o que constitui uma boa razão, ou uma boa
analogia, ou uma boa distinção, ou então
de examinar as inferências e implicação
daquilo que é dito. Através do que pensam,
dizem ou fazem, elas mostram que importam-se com as idéias,
e valorizam o pensar bem, mesmo não estando explicitando
em suas ações. Se pudermos incentivá-las
a identificarem-se com os procedimentos intelectuais dos
personagens, conseqüentemente, elas também irão
começar a praticar e apreciar os procedimentos de
uma boa investigação.
Esta concepção da narrativa enquanto preparação
e estímulo para a criança filosofar está
parcialmente de acordo com a colocação de
Martha`s Nusbanum sobre a relação entre educação
moral, juízos éticos e narrativa. Em seu livro
Loves Knowledge, Nussbanum é muito convincente ao
aproximar as ações éticas com as situações
complexas vividas pelos personagens fictícios.
Sem apresentar o mistério, os conflitos e os riscos
de um situação vivida deliberadamente, será
difícil para a filosofia abranger os valores peculiares
e a beleza das ações éticas. É
justamente este aspecto, de que as escolhas humanas são
freqüentemente uma aventura da personalidade, uma luta
contra os medos e os mistérios, a fonte de grande
parte da beleza e riqueza humana que os textos filosóficos
tradicionais não conseguem abordar (p.142).
As
crianças estão envolvidas no empreendimento
de emitir juízos de valores mais consistentes (tendo
ou não conciência disso). Esta ação
envolve um pensar crítico, criativo e cuidadoso sobre
muitos aspectos das experiências humanas que não
são abordados pelos textos filosóficos tradicionais.
Crianças engajadas em uma comunidade de investigação
filosófica, usarão as histórias como
trampolim para suas futuras investigações.
Inicia-se com a reflexão de um conceito intrigante
da história que avançará para perguntas
e questionamentos mais gerais. As histórias servem
de instrumento para que os jovens tenham acesso ao domínio
da investigação filosófica podendo,
assim, conectar suas investigações com a emissão
de juízos mais consistentes.
2- Quais são as características, os elementos
e os componentes imprescindíveis em um livro de filosofia
para crianças?
1. Cada página deve conter uma variedade
de conceitos filosóficos comuns à crianças
de determinada faixa etária e que sejam centrais
nas suas experiências, e principalmente, controversos.
Estes conceitos devem ser tão óbvios que seria
muito difícil não notá-los;
2. Cada capítulo deve apresentar
alguns aspectos da investigação filosófica
como um quebra-cabeça. Ex: tentar identificar o que
é uma boa razão, ou uma boa inferência
ou uma pergunta filosófica;
3. Cada novela deve ter as próprias
crianças ficticias modelando os procedimentos da
investigação filosófica: a riqueza
e a complexidade do dialogo filosófico, os diferentes
pontos de vista, a analise das inferências, as razões,
as entrelinhas, as analogias, os contra-exemplos, os posicionamentos
alternativos, e o processo autocorretivo que acontecerá
na comunidade investigativa;
4. Cada novela deve modelar personagens
engajados em um crescente cuidado, respeito e sensibilidade
para os pontos de vista e posicionamentos filosóficos
de cada membro da comunidade;
5. Cada novela deve modelar uma sensibilidade
para os sentimentos do próximo e como esses sentimentos
podem influenciar os posicionamentos no dialogo filosófico;
6. Cada novela deve modelar uma investigação
cooperativa e colaborativa, além da disposição
para construir o pensar a partir das idéias dos outros,
e eventualmente, a possibilidade de identificar-se com o
trabalho do grupo ao mesmo tempo em que está sendo
construído um senso de verdade, cuidado e solidariedade;
7. Além do aspecto da filosofia
que a novela foca-se (exemplo: Pimpa centra-se na questão
das relações), deve incluir tantas, quantas
dimensões filosóficas forem possíveis
(exemplo: ética, lógica, estética,
epistemologia, metafísica, etc);
8. Cada novela deve enriquecer os conceitos
e os procedimentos filosóficos emergindo-os nas experiências
diárias dos personagens fictícios, despertando
assim, a curiosidade dos estudantes em desvendar o significado
destes conceitos e procedimentos;
9. Fazendo um recorte na história
da filosofia cada novela deve apresentar diferentes posicionamentos
de conceitos e procedimentos filosoficos, encorajando assim,
as crianças a adentrarem em conversas filosóficas
e em pensar por elas mesmas sobre o signifcado destes conceitos,
e o que se tem a dizer sobre eles. Estes diferentes posicionamentos
podem aparecer nos diálogos dos personagens em linguagem
acessível a determinada faixa etária;
10. Cada novela deve modelar o processo
de emissão de juízos em toda sua complexidade
(mostrando crianças engajadas em um pensar crítico,
criativo e cuidadoso);
11. Cada novela deve também modelar
crianças desenvolvendo-se emocional, social e cognitivamente;
12. Cada novela deve modelar um professor
adulto, enquanto facilitador do dialogo, interessado em
cada criança e no processo investigativo. Este professor
não deve posicionar-se como o detentor do saber,
e sim, como modelador do dialogo, possibilitando assim,
às crianças internalizarem os procedimentos
e começarem a praticá-los. Um bom monitor
deve ser auto-corretivo e estar pronto para lançar
perguntas problematizadoras e abertas. Entretanto, o monitor
deve ser pedagogicamente forte e capaz de auxiliar as crianças
a utilizar as habilidades necessárias para a investigação
filosófica. Ele deve saber como modelar estas habilidades
e ser ágil para pontuar posicionamentos contrários,
para questionar uma analogia ou pedir inferências,
caso os participantes não o façam.
Com isto, não estou querendo dizer que todos os professores
de filosofia devem ter a mesma personalidade e o mesmo estilo
filosófico. Alguns podem ser mais diretivos, sérios,
outros, mais brincalhões, jovens, tranqüilos,
tímidos, conservadores. Mas o que todos devem ter
em comum é curiosidade e anseio para investigar questões,
deixando de lado aquela postura de detentor do saber. Além
disso, devem servir de modelo para respeitar as idéias
e os sentimentos das crianças e também, devem
criar um espaço de confiança e abertura na
sala de aula.
3-Qual a diferença entre as novelas filosóficas
e as outras histórias para crianças?
As novelas filosóficas são um gênero
com um objetivo especifico: convidar as crianças
a adentrarem nos diálogos filosóficos sobre
conceitos centrais e controversos presentes na experiência
humana. Neste sentido, elas tem um objetivo didático
bem definido e freqüentemente são elaboradas
a partir de conceitos filosóficos tradicionais e
possuem estratégias que levam a reflexão,
além de terem algumas idéias e estilos de
pensamento que são bem recebidos pelas crianças
que pensam sobre as suas próprias experiências.
Estas novelas acompanham manuais que:
1. Apresentam as idéias centrais
para os professores e um esboço dos diferentes posicionamentos
dentro da historia da filosofia;
2. Oferecem planos de discussão
e atividades que tentam reconstruir a filosofia e envolver
as crianças em uma investigação filosófica
relacionando os conceitos com suas próprias experiência;
3. Os manuais também se propõem
a oferecer aos professores e alunos uma variedade de exercícios
e planos de discussão que pretendem auxilia-los a
redefinir seu próprio pensar e despertá-los
para o processo investigativo deste pensar;
Esta consciência do o próprio pensar possibilita
um processo auto corretivo, uma das principais características
do pensar critico.
Os clássicos da literatura infantil não tem
este objetivo didático, e as histórias não
acompanham manuais que pretendem envolver as crianças
no processo consciente da investigação filosófica.
Apesar de muitos estudiosos acreditarem que a aproximação
filosófica através da literatura infantil
seja mais fácil do que as novelas filosóficas
e os manuais, eu desconfio que seja o oposto. Em muitos
países os professores não estão preparados
para a arte e o oficio do filosofar. Para explorar a dimensão
filosófica da literatura, e ensinar as crianças
a fazê-lo, é necessário a presença
especialistas não tão fáceis de se
encontrar, principalmente, se considerarmos a complexidade
de uma boa literatura.
Enquanto a análise da trama e o desenvolvimento das
personagens é um objetivo crucial na literatua clássica,
o que buscamos na filosofia são estratégias
de pensamento e idéias que permeiam a novela. As
literaturas comuns não proporcionam aos leitores
os instrumentos necessários para filosofar. Não
se preocupam com a formação de conceitos e
hipóteses criativas sobre a natureza das coisas,
não identificam as estruturas dos argumentos e as
falácias do raciocínio, e tampouco buscam
procedimentos reflexivos e investigativos. Estes procedimentos
freqüentemente tornam-se centrais em uma discussão
filosófica, e não é garantia, que professores
e alunos serão capazes de identificá-los pela
simples análise de um trabalho literário,
até o reconhecimento de conceitos controversos é
algo que se aprende com a prática.
As novelas filosoficas, enquanto textos, servem de trampolim
para a investigação porque:
1. Elas apresentam sentimentos e emoções
para serem averiguadas sem ter que expor os problemas particulares
de cada um. Desta maneira, as crianças podem discutir
a razoabilidade das emoções das personagens,
e, juntas, tentar entender o porque deles se sentirem assim;
2. Para acrescentar ao seu aspecto da arte,
elas devem retratar a pratica filosofica como um istrumento
que pode ser ensinado e aprendido;
3. Elas apresentam conceitos, procedimentos
e situações filosóficos contextualizadas
na vida real que podem ser facilmente transferíveis
para as crianças.
Resumindo, eu não diria que os procedimentos que
permeiam o coração da investigação
filosófica não podem ser dominados pelos professores
e alunos que utilizam a literatura. Porém, esta estratégia,
ao ser comparada com o uso de uma historia filosófica
estruturada didáticamente, é mais difícil
e provavelmente a dimensão filosófica do diálogo
cederá lugar para análise literária
ou interpretação do texto.
4-Quais são as diferenças entre as
novelas filosoficas e algumas histórias filosóficas,
como por exemplo, o Mundo de Sofia?
O mundo de Sofia é um livro muito bem pensado que
pretende apresentar a história da filosofia para
crianças. Já as novelas filosóficas
pretendem envolvê-las no processo filosófico.
Elas são uma reconstrução da filosofia
enriquecida pelas experiências das crianças
fictícias. Esta reconstrução modela
o processo de investigação estimulando assim,
as crianças a investigar, além, de auxiliá-las
na sala de aula pois relacionam os conceitos e procedimentos
filosóficos com o cotidiano.
5-Você escreveu algumas novelas e pequenas
historias de outras coleções. Como é
possível enriquecer filosoficamente cada pagina com
significados, problemas e relações?
Eu já escrevi inúmeras histórias filosóficas
e já criei três programas de filosofia para
crianças (O hospital de bonecas e Jesse e Nakleesha)
para crianças de 4 à 6 anos, e outras, Hannah,
mais o manual Braking the Vicious Circle para o inicio da
adolescência.
O livro The Doll Hospital e o seu manual, focam-se nos procedimentos
de uma investigação coletiva além de
auxiliar as crianças a tornarem-se conscientes de
conceitos filosóficos centrais, como por exemplo,
pessoa, real, bem, beleza, verdade e identidade. Nakleshe
and Jesse, uma continuação de Doll Hospital
e seu manual, focam-se na estrutura filosófica, além,
de trazer a atenção da criança para
os conceitos filosóficos atemporais que permeiam
o mundo: amor, amizade, compaixão, mente, o eu, conhecimento,
tempo e relacionamentos de exploração.
Particularmente a novela Hannah é um pouco diferente
pois também foca-se em problemas sociais: abuso sexual
infantil. Esta novela faz parte de um projeto em Quebec,
no Canadá (são sete programas ao todo) que
tem como objetivo ajudar as crianças a entenderem
o abuso sexual infantil e tornarem-se conscientes das estratégias
de prevenção. A diferença deste trabalho
é que ao invés de dar as crianças uma
lista de regras à serem seguidas, introduz-se a problemática
através da filosofia do corpo, juntamente com conceitos
filosóficos atemporais que permeiam as experiências
infantis. Além disso, é dada as crianças
uma oportunidade de praticar conscientemente habilidades
do pensamento crítico, criativo e cuidadoso, enquanto
propõe conceitos filosóficos, como por exemplo,
relações injustas.
Se estou escrevendo pequenas histórias ou novelas
filosóficas, na medida em que estas histórias
irão tratar de questiomentos, perguntas e experiências
infantis, é inevitável que os conceitos filosóficos
irão emergir.
Quais crianças não estão interessadas
em amizade, relações familiares, tempo, espaço,
e os aspectos que constituem uma pessoa? Entretanto, pequenas
histórias normalmente dão menos ênfase
para os procedimentos e estratégias filosóficos.
É justamente aí que os manuais, que acompanham
estas histórias, devem introduzir uma diversidade
de exercícios sobre boa razão, boa analogia,
boa inferência, encontrar pressupostos e falácias
lógicas. O que é garantido nas histórias
filosóficas é a oportunidade de se focar numa
pergunta central significativa para as crianças.
Por exemplo, me lembro de quando escrevi os questionamentos
de Jesse sobre o por que das pessoas terem bebês foi
uma oportunidade não apenas de explorar um questionamento
pertinente à muitas crianças, como também
permitiu que introduzisse conceitos como natureza, amor,
relacionamento, ao mesmo que explorei profundamente o que
constitui uma boa razão.
6-Quais são as diferenças entre os
livros escritos para crianças com idades diferentes
e necessidades específicas?
Aquele que estudar a estrutura das novelas filosoficas para
crianças perceberá rapidamente que os conceitos
filosóficos aparecem sempre, independentemente da
criança ter quatro ou dezoito anos. A justificativa
para isto é que a maioria dos conceitos filosóficos
são atemporais; nós necessitamos deles quando
começamos a falar e juntar alguns conceitos para
começarmos a entender o nosso mundo. Mesmo que tenha
três anos, tenho que ter uma idéia dos conceitos
de amizade, parentes, eu mesmo, corpo, mente, bondade, tempo
e verdade. Geralmente, as crianças aprendem estes
conceitos pela convivência com a família e
o ambiente do bairro.
Somente quando as crianças começam a filosofar
com seus colegas é que irão perceber que muitos
destes conceitos são controversos pois muitas pessoas
vêem as coisas de um jeito diferente. É justamente
esta situação problemática que desencadeia
o diálogo investigativo.
Por outro lado, existe uma sequência para introduzir
as habilidades de pensamento, procedimentos e estratégias
filosóficos. Não é possível
apresentar todas as habilidades e procedimentos para uma
criança de quatro anos. Por que? Seria demais. Mas
não estou afirmando que uma criança de quarto
anos seja incapaz de utilizar estas habilidades: ela apenas
não tem consciência disto, e não sendo
capaz de reconhecer estas habilidades enquanto a utiliza.
Por isso, no livro The Doll Hospital para crianças
de quatro à cinco anos, foco em duas habilidades
contradição e raciocínio hipotético.
A novela Rebeca foca-se no diálogo investigativo.
Issao e Guga foca-se na investigação científica
e as relações entre o mundo e a linguagem.
Pimpa nas relações e na linguagem. A descoberta
de Ari dos Telles no raciocínio. Luiza na Ética.
Outra coisa, muitas pessoas pensam erroneamente que as histórias
escritas para crianças pequenas deveriam ser menos
metafísica. As crianças muito pequenas não
fazem a mesma distinção que as pessoas mais
velhas. Elas vêem o mundo muito mais holisticamente
e tentam desvendar o porque das coisas e como as partes
se relacionam com o todo. Por conta de estarem no processo
de aquisição da linguagem, não esgotam
rapidamente as investigações acerca disso.
Para as crianças, como para os filósofos,
não existe uma certeza absoluta do que constitui
uma verdade. Neste sentido, elas são muito mais abertas
para realidades contrárias e soluções
alternativas às questões problemáticas.
7-Que método é utilizado na filosofia
para crianças para ensinar raciocínio e emitir
juízos?Qual a diferença
entre este método e um método para adultos?
Adultos que querem trabalhar com filosofia para crianças
aprendem a pensar bem e emitir juízos de valores
consistentes da mesma maneira que as crianças o fazem:
1. lendo uma história que seja problematica
e que motive o leitor a investigar; 2. construindo uma comunidade de investigação
com os colegas na qual cada membro aprenderá a:
• ouvir o outro,
• a questionar bem,
• pedir criterios, razões e apontar as suposições,
• construir a partir da idéia do outro,
• oferecer contra-exemplos,
• questionar as inferências dos outros,
• sugerir pontos de vista alternativos,
• criticar as analogias dos outros,
• ser capaz de entender a visão de mundo dos
outros,
• construir novos significados e novas relações,
• desenvolver sensilibidade para com os sentimentos
e emoções alheias,
• desenvolver amor pelas habilidades da investigação,
especialmente auto-correção,
• seguir o fluxo da investigação.
3. Envolvendo-se no pensamento crítico,
criativo e cuidadoso, ou seja, tornar-se consciente dos
criterios, contexto e da necessidade de se auto-corrigir,
pensar para encontrar possilidades alternativas, e pedir
para cada um rever as conseqüências de decisões
e atitudes individuais que poderiam causar em si mesmo,
nos outros e na natureza;
4. Desenvolvendo certas habilidades e disposições
que conduzem a uma investigação conjunta:
• ouvir atentamente,
• imaginar-se no lugar do outro,
• ter aceitação aos diferentes posicionamentos,
• ter curiosidade, admiração, compaixão
pelas outras pessoas e outros modos de vida,
• ter questionamento critico, pensamento cuidadoso,
• ter esforço e humildade intelectual,
• ter senso de solidariedade com a comunidade,
• pensar enquanto possibilidades, projetando um mundo
e um ser humano ideal,
• desenvolver amor pela igualdade e razoabilidade.
8-É desejável que as novelas filosóficas
sejam traduzidas, porém, existem alguns impecilhos
neste processo. As novelas trazem alguns valores éticos
que as crianças de determinados países não
se identificam. Além de existirem peculiaridades
culturais inconsistentes com os valores éticos de
certos países. Como este impasse pode ser superado?
As novelas não devem ser apenas traduzidas, mas adaptadas
a cultura das crianças. Isto significa que algumas
questões nem devem ser mencionadas em certos países
(exemplo: na descoberta de Ari dos Telles existe o problema
com o juramento da bandeira), portanto, é uma tarefa
para o tradutor e o adaptador encontrar questões
similares que proporcionarão uma investigação
análoga e aberta entre as crianças. É
exatamente esta a razão para que particularidades
sejam trocadas de acordo com a cultura: baisebol pode tornar-se
futebol, sanduíche de pasta de amendoim pode transformar-se
em tacos mexicanos, os nomes das crianças devem refletir
a sociedade na qual o programa será ensinado. Mas,
estes aspectos são problemas técnicos e sua
superação depende da habilidade do adaptador.
Porém, sobre os valores inerentes à filosofia
para crianças enfatizados numa comunidade investigativa
e o pensamento autônomo sobre os conceitos e procedimentos
filosóficos eu posso afirmar o seguinte:
Existe uma grande diferença entre os valores procedimentais
e os substanciais. É uma premissa na filosofia para
crianças (eu diria na filosofia em geral) estar comprometido
com os procedimentos, questionamento, igualdade, emitir
juízos críticos, investigar abertamente, auto-correção
e procedimentos democráticos. Estes são os
critérios que governam e avaliam o avanço
ou não dos procedimentos filosóficos dentro
da sala de aula; como estão o pensamento dialógico
e a comunidade investigativa.
Entretanto, o produto do pensamento dialógico e a
investigativa conjunta é sempre aberto e livre. A
filosofia para crianças encoraja as crianças
a:
1. Ter clareza do que os outros disseram
a respeito de um assunto (e isso inclui filósofos
do passado mesmo que a criança não tenha consciência
que algumas falas dos personagens são palavras de
Spinoza, Aristóteles, ou Marx); 2. Estar ciente sobre o que os parceiros
pensam sobre um assunto; 3. Engajar-se reflexiva e conjuntamente
em uma investigação focada em determinado
assunto; 4. A emissão de valores que é
a manifestação do pensamento autônomo
sobre o assunto em questão.
Por exemplo, existem questões sobre conquista, divórcio,
roubo, mentira, pedofilia, e exploração que
surgem no contexto das histórias filosóficas.
Estas questões tornam-se questionamentos que as crianças
investigam, considerando-se sempre o contexto, as consequências,
projetando-se o ser humano ético, o mundo ideal,
boas razões, entendimento. Mas imprecindivelemente,
eles tem que decidir se em determinada circusntância
mentir, divorciar-se ou roubar era a coisa certa ou errada
a se fazer.
Em outras palavras, a filosofia para crianças não
ensina as crianças o que pensar, impreterivelmente
esta tarefa é dela. O que ela ensina são os
instrumentos intelectual, social e emocional necessários
para o pensar bem, e para a comunidade investigativa desenvolver
o cuidado, o compromisso e a coragem para pensar autonomamente.
9-Você escreveu manuais para professores com exercicios
filosóficos e planos de discussão. Você
poderia falar um pouco sobre sua experiência, o conteúdo
e a prática dos mesmos.
Sim, eu ajudei o professor Lipman na elaboração
de inúmeros manuais, e eu também já
escrevi três deles. Primeiramente, gostaria de dizer
que eu aprendi muito com o Lipman, e o mais importante,
ele me ensinou a construir exercícios e planos de
discussão que de fato estimulam o pensamento filosófico
e a auto-correção nas crianças. A experiência
de escrever os manuais tem sido enriquecedora e satisfatória
pelos seguintes aspectos:
1. Estimulou-me a rever a história
da filosofia considerando o posicionamento de inúmeros
pensadores com pontos de vista alternativos em relação
a inúmeras questões filosóficas;
2. Instigou-me a examinar os procedimentos
filosóficos e como eles poderiam ser utilizados para
que as crianças pudessem praticá-los de um
jeito relevante para as suas experiências;
3. Encorajou-me a repensar a assombrosa
e complexa arte de um bom ensino e suas conseqüências;
4. Motivou-me a tentar ajudar ao máximo
os professores a serem capazes de conduzir um bom diálogo
filosófico na sala de aula;
5. Provocou-me a escutar atentamente o
discurso das crianças em ambientes informais, e como
elas utilizam as palavras e os conceitos e como tentam dar
explicações e justificativas que fazem sentido
para elas e para os outros;
6. Despertou a minha criatividade pois
eu tive que construir uma diversidade de atividades com
mímica, canções, dança, pintura
e outras formas de comunicação filosófica;
7. Fez com que explicasse aos professores
as idéias filosóficas centrais sendo fiel
a história da filosofia, e ao mesmo tempo numa linguagém
comprenssível que possiblitasse relacionar as idéias
com suas próprias experiências e com as experiências
das crianças;
8. Quanto mais me envolvo na escrita dos
manuais, mais eu percebo o quanto uma boa filosofia é
a habilidade de fazer a pergunta certa, na hora e na circunstância
propicia;
9. A construção do plano
de discussão revela a complexidade e a beleza de
um bom diálogo filosófico. Em outras palavras,
existe uma grande dimesão estética no diálogo
filosófico que pode tornar-se consciente e ser utilizado
como uma estratégia para os estudantes avaliarem
seus próprios diálogos;
10. Aumentou o meu respeito pela potencialidade
e profundidade do pensamento, investigação
e da emissão de juízos consistentes das crianças
quando elas aprendem a investigar conjuntamente.
Conclusão:
Para finalizar, eu gostaria de enfatizar que não
é possível as crianças filosofarem
sem que haja uma transformação no autoritarismo
tradicional da sala de aula. É necessário
que a sala de aula transforme-se numa comunidade democrática
e investigativa.
Tal comunidade caracteriza-se por um grupo de crianças
que juntas:
• investigam assuntos problemáticos pertinentes
ao grupo,
• dão razões para os seus pontos de
vista,
• oferecem exemplos-contrários,
• questionam as inferências e suposições
dos outros,
• encorajam os participantes a melhorarem as razões
e justificativas de seus pontos de vista,
• oferecem soluções alternativas para
o problema em questão,
• respeitam cada um enquanto ser humano, e
• acompanham o percurso da investigação.
Com o tempo, as crianças identificam-se mais com
o trabalho do grupo ao invés de fixarem-se nos seus
próprios pontos de vista. Aos poucos aprendem a construir
cooperativamente os significados dos conceitos filosóficos,
e então, a visão de mundo de cada uma torna-se
um trabalho árduo coletivo de investigação.
A sala de aula, enquanto comunidade de investigação
filosófica, possibilita as crianças a experiência
de viver num contexto de respeito mútuo, diálogo
disciplinado e investigação cooperativa, livre
de arbitrariedade e manipulação. Tal modelo
permite a prática direta de certas disposições,
interrelação dos participantes para o equilibrio
do todo, preservação do que é pensado
como algo válido, tolerância para diferentes
perspectivas e fortalecimento do cuidado.
O melhor aspecto desta comunidade é oferecer às
crianças uma imersão em uma experiência
democrática, epistemológica, ética
e estética. Esta experiência edifica-se conforme
elas comecem a visualizar novas possibilidades, novas relações
e novos valores. O crescimento da sensibilidade com o outro,
a distinção entre as partes e todo, o esforço
imaginativo de elementos para construir significados dependerão
da qualidade e consciência desta imersão. Conforme
as crianças tornam-se mais conscientes das dimensões
da comunidade de investigação elas começam
a realmente se importar com as formas, procedimentos e conseqüências
do que é investigado na comunidade.
O que interessa para as crianças revela o que é
realmente importante para elas. Importar-se ou cuidar é
contrário a ser indiferente. Se importar ou cuidar,
é a fonte da amizade, do amor, dos valores, do compromisso,
da compaixão e da ternura humana. A tal cuidado enlaça-se
a convicção. Quando este laço é
estabelecido, será uma consequência as crianças
motivarem-se à agir de acordo com suas convicções.
Ao se importarem com as coisas, elas sentem que tem o dever
de agir diante de uma situação problemática,
então, elas sentem-se aptas a emitir juízos
e agir.
O desenvolvimento de tal cuidado é importante porque
sem ele não é possível o pensar ético.
Diante da tecnologia e do acúmulo de riqueza existe
entre muitos jovens o medo de que as coisas significativas
tornem-se irrelevantes. A armadilha deste pensamento é
o sentimento de apatia, de não querer participar,
e o grande apego à estímulos externos. Se
as crianças se importarem apenas com a sobrevivência,
a possibilidade de criar-se um mundo pacífico e justo
é inexistente.
Neste sentido, a comunidade de investigação
filosófica oferece às crianças a oportunidade,
não apenas de descobrir e praticar habilidades cognitivas,
mas também de descobrir e criar valores, ideais e
encontrar pessoas dos quais elas realmente se importam.
Oferece a elas um ambiente propício ao crescimento
emocional, cognitivo, social e político. É
neste contexto, que elas vivenciam o diálogo autêntico,
o respeito pelos outros enquanto seres humanos, o crescimento
da confiança mutua e a habilidade de comunicação
em diversos níveis. Este crescimento da confiança
na seriedade e compromisso de cada um é imprescindível
para a educação das emoções.
Portanto, se almejamos fortalecer a investigação
cuidadosa, na qual a investigação ética
é um componente importante, é necessário
muito mais do que um especialista na prática da lógica
e da racionabilidade. Ao participar de uma comunidade investigativa
as crianças tornam-se conscientes das estruturas
significativas que conectam suas vidas com a dos outros
e com o mundo. Elas descobrem muitas coisas a respeito delas
e do mundo, além, de criar inúmeras possibilidades
de pensar e agir no mundo.
Quando as crianças comprometem-se com a comunidade
de investigação e tudo que a envolve (incluindo
um compromisso com o principio da falibilidade) acontece
algo ainda mais importante do que o fortalecimento das habilidades
de pensamento. As crianças percebem-se numa forma
de vida democratica e investigativa que tem significados
intrinsicos e exige o cuidado, amor e compromisso. Elas
descobrem-se como investigadores cooperativos, pessoas que
são intuição, sentimento, maravilhamento,
especulativas, criativas, amorosas, que compartilham, e
desejam encontrar com os seus colegas e o professor toda
a vastidão da experiência humana.
Esta é uma experiência de cuidado baseado na
confiança de que independente do que aconteça
no mundo externo, comunicação, amor, amizade,
solidariedade, criatividade, construção significativa,
a partilha de idéias como beleza, justiça,
bondade e compaixão, são as questões
que realmente importam. Não adianta apenas dizer
isto aos jovens; eles tem que vivenciar.