Entrevista com a Ann Sharp

Ann Margareth Sharp é uma das principais personagens do IAPC, e por muitos anos colaborou com o fundador Mathew Lipman. Ela escreveu inúmeras histórias filosóficas para crianças, além de contribuir em muitos dos manuais para os professores.

Saeed Naji é pesquisadora do Instituto de estudos culturais e humanos no Tehran, Irã, http://www.ihcs.ac.ir/ Naji entrevistou Ann Sharp na conferência em São Cristovão, México, no dia 26 de Fevereiro de 2004. Visite o website do Irã www.p4c.ir

1-Por que as novelas filosóficas mostram-se mais eficazes na educação do que os textos filosóficos?

John Dewey foi muito feliz em lembrar aos educadores que existe uma grande diferença entre o aspecto lógico e o psicológico do desenvolvimento e da apresentação da disciplina.

O texto filosófico é uma tentativa de apresentar a filosofia de uma maneira lógica e inteligível desprovida da experiência. A novela filosófica, enquanto texto, é uma tentativa de motivar crianças a investigar conceitos e procedimentos filosóficos conectados com experiências infantis. Em outras palavras, a narrativa apresenta a filosofia juntamente com as experiências de personagens fictícios.

As crianças gostam das histórias e através delas podem ser incentivadas a pensar e indagar se a história está conectada as suas experiências diárias podendo,então, focar em um tópico e a uma situação que as intriguem e que seja contestador. Quando a história é dialogada entre as crianças ela se torna um instrumento pelo qual elas, mais do que os adultos, tem o domínio da situação. Diferente dos textos tradicionais, trata-se de uma história que é utilizada para definir o que será investigado e dialogado.

Porém, existe um aspecto importante no que tange a utilização das novelas filosóficas no trabalho com crianças. Nós não podemos achar que as crianças já entram na sala de aula com as habilidades filosóficas desenvolvidas. Elas precisam aprendem as etapas de uma investigação filosóficas, e nesse sentido, as novelas filosóficas, são um ótimo exemplo, já que as crianças se envolvem emocional e intelectualmente na vida dos personagens que servem de modelo neste processo de investigação. Esses personagens não são como os heróis, heroínas e vilões que encontramos nos clássicos da literatura infantil, são crianças. Essas crianças fictícias têm o desafio de mostrar o que constitui uma boa razão, ou uma boa analogia, ou uma boa distinção, ou então de examinar as inferências e implicação daquilo que é dito. Através do que pensam, dizem ou fazem, elas mostram que importam-se com as idéias, e valorizam o pensar bem, mesmo não estando explicitando em suas ações. Se pudermos incentivá-las a identificarem-se com os procedimentos intelectuais dos personagens, conseqüentemente, elas também irão começar a praticar e apreciar os procedimentos de uma boa investigação.

Esta concepção da narrativa enquanto preparação e estímulo para a criança filosofar está parcialmente de acordo com a colocação de Martha`s Nusbanum sobre a relação entre educação moral, juízos éticos e narrativa. Em seu livro Loves Knowledge, Nussbanum é muito convincente ao aproximar as ações éticas com as situações complexas vividas pelos personagens fictícios.

Sem apresentar o mistério, os conflitos e os riscos de um situação vivida deliberadamente, será difícil para a filosofia abranger os valores peculiares e a beleza das ações éticas. É justamente este aspecto, de que as escolhas humanas são freqüentemente uma aventura da personalidade, uma luta contra os medos e os mistérios, a fonte de grande parte da beleza e riqueza humana que os textos filosóficos tradicionais não conseguem abordar (p.142).

As crianças estão envolvidas no empreendimento de emitir juízos de valores mais consistentes (tendo ou não conciência disso). Esta ação envolve um pensar crítico, criativo e cuidadoso sobre muitos aspectos das experiências humanas que não são abordados pelos textos filosóficos tradicionais. Crianças engajadas em uma comunidade de investigação filosófica, usarão as histórias como trampolim para suas futuras investigações. Inicia-se com a reflexão de um conceito intrigante da história que avançará para perguntas e questionamentos mais gerais. As histórias servem de instrumento para que os jovens tenham acesso ao domínio da investigação filosófica podendo, assim, conectar suas investigações com a emissão de juízos mais consistentes.

2- Quais são as características, os elementos e os componentes imprescindíveis em um livro de filosofia para crianças?


1. Cada página deve conter uma variedade de conceitos filosóficos comuns à crianças de determinada faixa etária e que sejam centrais nas suas experiências, e principalmente, controversos. Estes conceitos devem ser tão óbvios que seria muito difícil não notá-los;

2. Cada capítulo deve apresentar alguns aspectos da investigação filosófica como um quebra-cabeça. Ex: tentar identificar o que é uma boa razão, ou uma boa inferência ou uma pergunta filosófica;

3. Cada novela deve ter as próprias crianças ficticias modelando os procedimentos da investigação filosófica: a riqueza e a complexidade do dialogo filosófico, os diferentes pontos de vista, a analise das inferências, as razões, as entrelinhas, as analogias, os contra-exemplos, os posicionamentos alternativos, e o processo autocorretivo que acontecerá na comunidade investigativa;

4. Cada novela deve modelar personagens engajados em um crescente cuidado, respeito e sensibilidade para os pontos de vista e posicionamentos filosóficos de cada membro da comunidade;

5. Cada novela deve modelar uma sensibilidade para os sentimentos do próximo e como esses sentimentos podem influenciar os posicionamentos no dialogo filosófico;

6. Cada novela deve modelar uma investigação cooperativa e colaborativa, além da disposição para construir o pensar a partir das idéias dos outros, e eventualmente, a possibilidade de identificar-se com o trabalho do grupo ao mesmo tempo em que está sendo construído um senso de verdade, cuidado e solidariedade;

7. Além do aspecto da filosofia que a novela foca-se (exemplo: Pimpa centra-se na questão das relações), deve incluir tantas, quantas dimensões filosóficas forem possíveis (exemplo: ética, lógica, estética, epistemologia, metafísica, etc);

8. Cada novela deve enriquecer os conceitos e os procedimentos filosóficos emergindo-os nas experiências diárias dos personagens fictícios, despertando assim, a curiosidade dos estudantes em desvendar o significado destes conceitos e procedimentos;

9. Fazendo um recorte na história da filosofia cada novela deve apresentar diferentes posicionamentos de conceitos e procedimentos filosoficos, encorajando assim, as crianças a adentrarem em conversas filosóficas e em pensar por elas mesmas sobre o signifcado destes conceitos, e o que se tem a dizer sobre eles. Estes diferentes posicionamentos podem aparecer nos diálogos dos personagens em linguagem acessível a determinada faixa etária;

10. Cada novela deve modelar o processo de emissão de juízos em toda sua complexidade (mostrando crianças engajadas em um pensar crítico, criativo e cuidadoso);

11. Cada novela deve também modelar crianças desenvolvendo-se emocional, social e cognitivamente;

12. Cada novela deve modelar um professor adulto, enquanto facilitador do dialogo, interessado em cada criança e no processo investigativo. Este professor não deve posicionar-se como o detentor do saber, e sim, como modelador do dialogo, possibilitando assim, às crianças internalizarem os procedimentos e começarem a praticá-los. Um bom monitor deve ser auto-corretivo e estar pronto para lançar perguntas problematizadoras e abertas. Entretanto, o monitor deve ser pedagogicamente forte e capaz de auxiliar as crianças a utilizar as habilidades necessárias para a investigação filosófica. Ele deve saber como modelar estas habilidades e ser ágil para pontuar posicionamentos contrários, para questionar uma analogia ou pedir inferências, caso os participantes não o façam.

Com isto, não estou querendo dizer que todos os professores de filosofia devem ter a mesma personalidade e o mesmo estilo filosófico. Alguns podem ser mais diretivos, sérios, outros, mais brincalhões, jovens, tranqüilos, tímidos, conservadores. Mas o que todos devem ter em comum é curiosidade e anseio para investigar questões, deixando de lado aquela postura de detentor do saber. Além disso, devem servir de modelo para respeitar as idéias e os sentimentos das crianças e também, devem criar um espaço de confiança e abertura na sala de aula.

3-Qual a diferença entre as novelas filosóficas e as outras histórias para crianças?

As novelas filosóficas são um gênero com um objetivo especifico: convidar as crianças a adentrarem nos diálogos filosóficos sobre conceitos centrais e controversos presentes na experiência humana. Neste sentido, elas tem um objetivo didático bem definido e freqüentemente são elaboradas a partir de conceitos filosóficos tradicionais e possuem estratégias que levam a reflexão, além de terem algumas idéias e estilos de pensamento que são bem recebidos pelas crianças que pensam sobre as suas próprias experiências.

Estas novelas acompanham manuais que:

1. Apresentam as idéias centrais para os professores e um esboço dos diferentes posicionamentos dentro da historia da filosofia;

2. Oferecem planos de discussão e atividades que tentam reconstruir a filosofia e envolver as crianças em uma investigação filosófica relacionando os conceitos com suas próprias experiência;

3. Os manuais também se propõem a oferecer aos professores e alunos uma variedade de exercícios e planos de discussão que pretendem auxilia-los a redefinir seu próprio pensar e despertá-los para o processo investigativo deste pensar;

Esta consciência do o próprio pensar possibilita um processo auto corretivo, uma das principais características do pensar critico.

Os clássicos da literatura infantil não tem este objetivo didático, e as histórias não acompanham manuais que pretendem envolver as crianças no processo consciente da investigação filosófica. Apesar de muitos estudiosos acreditarem que a aproximação filosófica através da literatura infantil seja mais fácil do que as novelas filosóficas e os manuais, eu desconfio que seja o oposto. Em muitos países os professores não estão preparados para a arte e o oficio do filosofar. Para explorar a dimensão filosófica da literatura, e ensinar as crianças a fazê-lo, é necessário a presença especialistas não tão fáceis de se encontrar, principalmente, se considerarmos a complexidade de uma boa literatura.

Enquanto a análise da trama e o desenvolvimento das personagens é um objetivo crucial na literatua clássica, o que buscamos na filosofia são estratégias de pensamento e idéias que permeiam a novela. As literaturas comuns não proporcionam aos leitores os instrumentos necessários para filosofar. Não se preocupam com a formação de conceitos e hipóteses criativas sobre a natureza das coisas, não identificam as estruturas dos argumentos e as falácias do raciocínio, e tampouco buscam procedimentos reflexivos e investigativos. Estes procedimentos freqüentemente tornam-se centrais em uma discussão filosófica, e não é garantia, que professores e alunos serão capazes de identificá-los pela simples análise de um trabalho literário, até o reconhecimento de conceitos controversos é algo que se aprende com a prática.

As novelas filosoficas, enquanto textos, servem de trampolim para a investigação porque:

1. Elas apresentam sentimentos e emoções para serem averiguadas sem ter que expor os problemas particulares de cada um. Desta maneira, as crianças podem discutir a razoabilidade das emoções das personagens, e, juntas, tentar entender o porque deles se sentirem assim;

2. Para acrescentar ao seu aspecto da arte, elas devem retratar a pratica filosofica como um istrumento que pode ser ensinado e aprendido;

3. Elas apresentam conceitos, procedimentos e situações filosóficos contextualizadas na vida real que podem ser facilmente transferíveis para as crianças.
Resumindo, eu não diria que os procedimentos que permeiam o coração da investigação filosófica não podem ser dominados pelos professores e alunos que utilizam a literatura. Porém, esta estratégia, ao ser comparada com o uso de uma historia filosófica estruturada didáticamente, é mais difícil e provavelmente a dimensão filosófica do diálogo cederá lugar para análise literária ou interpretação do texto.

4-Quais são as diferenças entre as novelas filosoficas e algumas histórias filosóficas, como por exemplo, o Mundo de Sofia?

O mundo de Sofia é um livro muito bem pensado que pretende apresentar a história da filosofia para crianças. Já as novelas filosóficas pretendem envolvê-las no processo filosófico. Elas são uma reconstrução da filosofia enriquecida pelas experiências das crianças fictícias. Esta reconstrução modela o processo de investigação estimulando assim, as crianças a investigar, além, de auxiliá-las na sala de aula pois relacionam os conceitos e procedimentos filosóficos com o cotidiano.

5-Você escreveu algumas novelas e pequenas historias de outras coleções. Como é possível enriquecer filosoficamente cada pagina com significados, problemas e relações?

Eu já escrevi inúmeras histórias filosóficas e já criei três programas de filosofia para crianças (O hospital de bonecas e Jesse e Nakleesha) para crianças de 4 à 6 anos, e outras, Hannah, mais o manual Braking the Vicious Circle para o inicio da adolescência.

O livro The Doll Hospital e o seu manual, focam-se nos procedimentos de uma investigação coletiva além de auxiliar as crianças a tornarem-se conscientes de conceitos filosóficos centrais, como por exemplo, pessoa, real, bem, beleza, verdade e identidade. Nakleshe and Jesse, uma continuação de Doll Hospital e seu manual, focam-se na estrutura filosófica, além, de trazer a atenção da criança para os conceitos filosóficos atemporais que permeiam o mundo: amor, amizade, compaixão, mente, o eu, conhecimento, tempo e relacionamentos de exploração.

Particularmente a novela Hannah é um pouco diferente pois também foca-se em problemas sociais: abuso sexual infantil. Esta novela faz parte de um projeto em Quebec, no Canadá (são sete programas ao todo) que tem como objetivo ajudar as crianças a entenderem o abuso sexual infantil e tornarem-se conscientes das estratégias de prevenção. A diferença deste trabalho é que ao invés de dar as crianças uma lista de regras à serem seguidas, introduz-se a problemática através da filosofia do corpo, juntamente com conceitos filosóficos atemporais que permeiam as experiências infantis. Além disso, é dada as crianças uma oportunidade de praticar conscientemente habilidades do pensamento crítico, criativo e cuidadoso, enquanto propõe conceitos filosóficos, como por exemplo, relações injustas.

Se estou escrevendo pequenas histórias ou novelas filosóficas, na medida em que estas histórias irão tratar de questiomentos, perguntas e experiências infantis, é inevitável que os conceitos filosóficos irão emergir.

Quais crianças não estão interessadas em amizade, relações familiares, tempo, espaço, e os aspectos que constituem uma pessoa? Entretanto, pequenas histórias normalmente dão menos ênfase para os procedimentos e estratégias filosóficos. É justamente aí que os manuais, que acompanham estas histórias, devem introduzir uma diversidade de exercícios sobre boa razão, boa analogia, boa inferência, encontrar pressupostos e falácias lógicas. O que é garantido nas histórias filosóficas é a oportunidade de se focar numa pergunta central significativa para as crianças. Por exemplo, me lembro de quando escrevi os questionamentos de Jesse sobre o por que das pessoas terem bebês foi uma oportunidade não apenas de explorar um questionamento pertinente à muitas crianças, como também permitiu que introduzisse conceitos como natureza, amor, relacionamento, ao mesmo que explorei profundamente o que constitui uma boa razão.

6-Quais são as diferenças entre os livros escritos para crianças com idades diferentes e necessidades específicas?

Aquele que estudar a estrutura das novelas filosoficas para crianças perceberá rapidamente que os conceitos filosóficos aparecem sempre, independentemente da criança ter quatro ou dezoito anos. A justificativa para isto é que a maioria dos conceitos filosóficos são atemporais; nós necessitamos deles quando começamos a falar e juntar alguns conceitos para começarmos a entender o nosso mundo. Mesmo que tenha três anos, tenho que ter uma idéia dos conceitos de amizade, parentes, eu mesmo, corpo, mente, bondade, tempo e verdade. Geralmente, as crianças aprendem estes conceitos pela convivência com a família e o ambiente do bairro.

Somente quando as crianças começam a filosofar com seus colegas é que irão perceber que muitos destes conceitos são controversos pois muitas pessoas vêem as coisas de um jeito diferente. É justamente esta situação problemática que desencadeia o diálogo investigativo.

Por outro lado, existe uma sequência para introduzir as habilidades de pensamento, procedimentos e estratégias filosóficos. Não é possível apresentar todas as habilidades e procedimentos para uma criança de quatro anos. Por que? Seria demais. Mas não estou afirmando que uma criança de quarto anos seja incapaz de utilizar estas habilidades: ela apenas não tem consciência disto, e não sendo capaz de reconhecer estas habilidades enquanto a utiliza. Por isso, no livro The Doll Hospital para crianças de quatro à cinco anos, foco em duas habilidades contradição e raciocínio hipotético. A novela Rebeca foca-se no diálogo investigativo. Issao e Guga foca-se na investigação científica e as relações entre o mundo e a linguagem. Pimpa nas relações e na linguagem. A descoberta de Ari dos Telles no raciocínio. Luiza na Ética.

Outra coisa, muitas pessoas pensam erroneamente que as histórias escritas para crianças pequenas deveriam ser menos metafísica. As crianças muito pequenas não fazem a mesma distinção que as pessoas mais velhas. Elas vêem o mundo muito mais holisticamente e tentam desvendar o porque das coisas e como as partes se relacionam com o todo. Por conta de estarem no processo de aquisição da linguagem, não esgotam rapidamente as investigações acerca disso. Para as crianças, como para os filósofos, não existe uma certeza absoluta do que constitui uma verdade. Neste sentido, elas são muito mais abertas para realidades contrárias e soluções alternativas às questões problemáticas.

7-Que método é utilizado na filosofia para crianças para ensinar raciocínio e emitir juízos? Qual a diferença entre este método e um método para adultos?

Adultos que querem trabalhar com filosofia para crianças aprendem a pensar bem e emitir juízos de valores consistentes da mesma maneira que as crianças o fazem:

1. lendo uma história que seja problematica e que motive o leitor a investigar;
2. construindo uma comunidade de investigação com os colegas na qual cada membro aprenderá a:

• ouvir o outro,
• a questionar bem,
• pedir criterios, razões e apontar as suposições,
• construir a partir da idéia do outro,
• oferecer contra-exemplos,
• questionar as inferências dos outros,
• sugerir pontos de vista alternativos,
• criticar as analogias dos outros,
• ser capaz de entender a visão de mundo dos outros,
• construir novos significados e novas relações,
• desenvolver sensilibidade para com os sentimentos e emoções alheias,
• desenvolver amor pelas habilidades da investigação, especialmente auto-correção,
• seguir o fluxo da investigação.

3. Envolvendo-se no pensamento crítico, criativo e cuidadoso, ou seja, tornar-se consciente dos criterios, contexto e da necessidade de se auto-corrigir, pensar para encontrar possilidades alternativas, e pedir para cada um rever as conseqüências de decisões e atitudes individuais que poderiam causar em si mesmo, nos outros e na natureza;

4. Desenvolvendo certas habilidades e disposições que conduzem a uma investigação conjunta:

• ouvir atentamente,
• imaginar-se no lugar do outro,
• ter aceitação aos diferentes posicionamentos,
• ter curiosidade, admiração, compaixão pelas outras pessoas e outros modos de vida,
• ter questionamento critico, pensamento cuidadoso,
• ter esforço e humildade intelectual,
• ter senso de solidariedade com a comunidade,
• pensar enquanto possibilidades, projetando um mundo e um ser humano ideal,
• desenvolver amor pela igualdade e razoabilidade.

8-É desejável que as novelas filosóficas sejam traduzidas, porém, existem alguns impecilhos neste processo. As novelas trazem alguns valores éticos que as crianças de determinados países não se identificam. Além de existirem peculiaridades culturais inconsistentes com os valores éticos de certos países. Como este impasse pode ser superado?

As novelas não devem ser apenas traduzidas, mas adaptadas a cultura das crianças. Isto significa que algumas questões nem devem ser mencionadas em certos países (exemplo: na descoberta de Ari dos Telles existe o problema com o juramento da bandeira), portanto, é uma tarefa para o tradutor e o adaptador encontrar questões similares que proporcionarão uma investigação análoga e aberta entre as crianças. É exatamente esta a razão para que particularidades sejam trocadas de acordo com a cultura: baisebol pode tornar-se futebol, sanduíche de pasta de amendoim pode transformar-se em tacos mexicanos, os nomes das crianças devem refletir a sociedade na qual o programa será ensinado. Mas, estes aspectos são problemas técnicos e sua superação depende da habilidade do adaptador.

Porém, sobre os valores inerentes à filosofia para crianças enfatizados numa comunidade investigativa e o pensamento autônomo sobre os conceitos e procedimentos filosóficos eu posso afirmar o seguinte:

Existe uma grande diferença entre os valores procedimentais e os substanciais. É uma premissa na filosofia para crianças (eu diria na filosofia em geral) estar comprometido com os procedimentos, questionamento, igualdade, emitir juízos críticos, investigar abertamente, auto-correção e procedimentos democráticos. Estes são os critérios que governam e avaliam o avanço ou não dos procedimentos filosóficos dentro da sala de aula; como estão o pensamento dialógico e a comunidade investigativa.

Entretanto, o produto do pensamento dialógico e a investigativa conjunta é sempre aberto e livre. A filosofia para crianças encoraja as crianças a:

1. Ter clareza do que os outros disseram a respeito de um assunto (e isso inclui filósofos do passado mesmo que a criança não tenha consciência que algumas falas dos personagens são palavras de Spinoza, Aristóteles, ou Marx);
2. Estar ciente sobre o que os parceiros pensam sobre um assunto;
3. Engajar-se reflexiva e conjuntamente em uma investigação focada em determinado assunto;
4. A emissão de valores que é a manifestação do pensamento autônomo sobre o assunto em questão.

Por exemplo, existem questões sobre conquista, divórcio, roubo, mentira, pedofilia, e exploração que surgem no contexto das histórias filosóficas. Estas questões tornam-se questionamentos que as crianças investigam, considerando-se sempre o contexto, as consequências, projetando-se o ser humano ético, o mundo ideal, boas razões, entendimento. Mas imprecindivelemente, eles tem que decidir se em determinada circusntância mentir, divorciar-se ou roubar era a coisa certa ou errada a se fazer.

Em outras palavras, a filosofia para crianças não ensina as crianças o que pensar, impreterivelmente esta tarefa é dela. O que ela ensina são os instrumentos intelectual, social e emocional necessários para o pensar bem, e para a comunidade investigativa desenvolver o cuidado, o compromisso e a coragem para pensar autonomamente.

9-Você escreveu manuais para professores com exercicios filosóficos e planos de discussão. Você poderia falar um pouco sobre sua experiência, o conteúdo e a prática dos mesmos.


Sim, eu ajudei o professor Lipman na elaboração de inúmeros manuais, e eu também já escrevi três deles. Primeiramente, gostaria de dizer que eu aprendi muito com o Lipman, e o mais importante, ele me ensinou a construir exercícios e planos de discussão que de fato estimulam o pensamento filosófico e a auto-correção nas crianças. A experiência de escrever os manuais tem sido enriquecedora e satisfatória pelos seguintes aspectos:

1. Estimulou-me a rever a história da filosofia considerando o posicionamento de inúmeros pensadores com pontos de vista alternativos em relação a inúmeras questões filosóficas;

2. Instigou-me a examinar os procedimentos filosóficos e como eles poderiam ser utilizados para que as crianças pudessem praticá-los de um jeito relevante para as suas experiências;

3. Encorajou-me a repensar a assombrosa e complexa arte de um bom ensino e suas conseqüências;

4. Motivou-me a tentar ajudar ao máximo os professores a serem capazes de conduzir um bom diálogo filosófico na sala de aula;

5. Provocou-me a escutar atentamente o discurso das crianças em ambientes informais, e como elas utilizam as palavras e os conceitos e como tentam dar explicações e justificativas que fazem sentido para elas e para os outros;

6. Despertou a minha criatividade pois eu tive que construir uma diversidade de atividades com mímica, canções, dança, pintura e outras formas de comunicação filosófica;

7. Fez com que explicasse aos professores as idéias filosóficas centrais sendo fiel a história da filosofia, e ao mesmo tempo numa linguagém comprenssível que possiblitasse relacionar as idéias com suas próprias experiências e com as experiências das crianças;

8. Quanto mais me envolvo na escrita dos manuais, mais eu percebo o quanto uma boa filosofia é a habilidade de fazer a pergunta certa, na hora e na circunstância propicia;

9. A construção do plano de discussão revela a complexidade e a beleza de um bom diálogo filosófico. Em outras palavras, existe uma grande dimesão estética no diálogo filosófico que pode tornar-se consciente e ser utilizado como uma estratégia para os estudantes avaliarem seus próprios diálogos;

10. Aumentou o meu respeito pela potencialidade e profundidade do pensamento, investigação e da emissão de juízos consistentes das crianças quando elas aprendem a investigar conjuntamente.

Conclusão:
Para finalizar, eu gostaria de enfatizar que não é possível as crianças filosofarem sem que haja uma transformação no autoritarismo tradicional da sala de aula. É necessário que a sala de aula transforme-se numa comunidade democrática e investigativa.

Tal comunidade caracteriza-se por um grupo de crianças que juntas:

• investigam assuntos problemáticos pertinentes ao grupo,
• dão razões para os seus pontos de vista,
• oferecem exemplos-contrários,
• questionam as inferências e suposições dos outros,
• encorajam os participantes a melhorarem as razões e justificativas de seus pontos de vista,
• oferecem soluções alternativas para o problema em questão,
• respeitam cada um enquanto ser humano, e
• acompanham o percurso da investigação.

Com o tempo, as crianças identificam-se mais com o trabalho do grupo ao invés de fixarem-se nos seus próprios pontos de vista. Aos poucos aprendem a construir cooperativamente os significados dos conceitos filosóficos, e então, a visão de mundo de cada uma torna-se um trabalho árduo coletivo de investigação.

A sala de aula, enquanto comunidade de investigação filosófica, possibilita as crianças a experiência de viver num contexto de respeito mútuo, diálogo disciplinado e investigação cooperativa, livre de arbitrariedade e manipulação. Tal modelo permite a prática direta de certas disposições, interrelação dos participantes para o equilibrio do todo, preservação do que é pensado como algo válido, tolerância para diferentes perspectivas e fortalecimento do cuidado.

O melhor aspecto desta comunidade é oferecer às crianças uma imersão em uma experiência democrática, epistemológica, ética e estética. Esta experiência edifica-se conforme elas comecem a visualizar novas possibilidades, novas relações e novos valores. O crescimento da sensibilidade com o outro, a distinção entre as partes e todo, o esforço imaginativo de elementos para construir significados dependerão da qualidade e consciência desta imersão. Conforme as crianças tornam-se mais conscientes das dimensões da comunidade de investigação elas começam a realmente se importar com as formas, procedimentos e conseqüências do que é investigado na comunidade.

O que interessa para as crianças revela o que é realmente importante para elas. Importar-se ou cuidar é contrário a ser indiferente. Se importar ou cuidar, é a fonte da amizade, do amor, dos valores, do compromisso, da compaixão e da ternura humana. A tal cuidado enlaça-se a convicção. Quando este laço é estabelecido, será uma consequência as crianças motivarem-se à agir de acordo com suas convicções. Ao se importarem com as coisas, elas sentem que tem o dever de agir diante de uma situação problemática, então, elas sentem-se aptas a emitir juízos e agir.

O desenvolvimento de tal cuidado é importante porque sem ele não é possível o pensar ético. Diante da tecnologia e do acúmulo de riqueza existe entre muitos jovens o medo de que as coisas significativas tornem-se irrelevantes. A armadilha deste pensamento é o sentimento de apatia, de não querer participar, e o grande apego à estímulos externos. Se as crianças se importarem apenas com a sobrevivência, a possibilidade de criar-se um mundo pacífico e justo é inexistente.

Neste sentido, a comunidade de investigação filosófica oferece às crianças a oportunidade, não apenas de descobrir e praticar habilidades cognitivas, mas também de descobrir e criar valores, ideais e encontrar pessoas dos quais elas realmente se importam. Oferece a elas um ambiente propício ao crescimento emocional, cognitivo, social e político. É neste contexto, que elas vivenciam o diálogo autêntico, o respeito pelos outros enquanto seres humanos, o crescimento da confiança mutua e a habilidade de comunicação em diversos níveis. Este crescimento da confiança na seriedade e compromisso de cada um é imprescindível para a educação das emoções.

Portanto, se almejamos fortalecer a investigação cuidadosa, na qual a investigação ética é um componente importante, é necessário muito mais do que um especialista na prática da lógica e da racionabilidade. Ao participar de uma comunidade investigativa as crianças tornam-se conscientes das estruturas significativas que conectam suas vidas com a dos outros e com o mundo. Elas descobrem muitas coisas a respeito delas e do mundo, além, de criar inúmeras possibilidades de pensar e agir no mundo.

Quando as crianças comprometem-se com a comunidade de investigação e tudo que a envolve (incluindo um compromisso com o principio da falibilidade) acontece algo ainda mais importante do que o fortalecimento das habilidades de pensamento. As crianças percebem-se numa forma de vida democratica e investigativa que tem significados intrinsicos e exige o cuidado, amor e compromisso. Elas descobrem-se como investigadores cooperativos, pessoas que são intuição, sentimento, maravilhamento, especulativas, criativas, amorosas, que compartilham, e desejam encontrar com os seus colegas e o professor toda a vastidão da experiência humana.

Esta é uma experiência de cuidado baseado na confiança de que independente do que aconteça no mundo externo, comunicação, amor, amizade, solidariedade, criatividade, construção significativa, a partilha de idéias como beleza, justiça, bondade e compaixão, são as questões que realmente importam. Não adianta apenas dizer isto aos jovens; eles tem que vivenciar.