Entrevista
com Richard Rorty
(retirada do site www.caffeeuropa.it; tradução
de Isabel Cristina Santana)
A
filosofia sempre foi animada por uma tensão para
a eternidade e para a imutabilidade. Quando começou
a acolher a precariedade do tempo, perguntando-se sobre
o futuro?
Falarei
simplesmente do papel do filósofo entendido como
um certo tipo de intelectual. Os filósofos começaram
a se preocupar com a imagem do futuro somente depois de
ter abandonado a esperança de conseguir o conhecimento
do eterno. A filosofia começou como uma tentativa
de fuga em um mundo no qual nada estava sujeito à
mundança. Os filósofos antigos partiam do
pressuposto de que a diferença entre o fluxo do passado
e o fluxo do futuro fosse transcurável, e somente
quando começaram a refletir seriamente sobre o tempo,
suas esperanças em relação ao futuro
desse mundo tomaram, gradualmente, o lugar do seu desejo
de conhecer um outro mundo. Hans Blumenberg sustentou que
os filósofos europeus começaram a perder o
interesse pelo eterno no final da Idade Média e que
o século XVI – o século de Bruno e de
Bacon – foi o período no qual os filósofos
começaram a levar o tempo a sério.
A
hipótese de Blumenberg é, provavelmente, correta,
mas esta “perda de si”, esta perda de interesse
pelo eterno tornou-se completamente autoconsciente somente
no século XIX. Este foi o período no qual
a filosofia ocidental, sob a égide de Hegel, formulou
dúvidas detalhadas e explícitas não
só sobre as tentativas platônicas de escapar
do tempo, mas também sobre o projeto kantiano de
individuar condições “a-históricas”
para a possibilidade dos fenômenos temporais. Este
também foi o período no qual, graças
a Darwin, torna-se possível para os seres humanos
considerar-se continuidade com o resto da natureza, como
seres, em tudo e por tudo, temporais e contingentes. A influência
conjunta de Hegel e Darwin deslocou o interesse da filosofia
da pergunta “O que somos?” para a pergunta “O
que podemos nos tornar?”.
Este
deslocamento teve consequências na imagem que os filósofos
tinham de si mesmos. Enquanto Platão e o próprio
Kant esperavam poder observar e julgar a sociedade e a cultura
na qual viviam de um ponto de vista externo, o ponto de
vista da verdade indiscutível e imutável,
os filósofos sucessivos, gradativamente, abandonaram
tais esperanças.
A atenção para com o futuro e, portanto, para
com uma dimensão de projeção, implica
na redução da filosofia a uma orientação
prática?
Não apenas começamos a dar a justa importância
ao tempo; nós filósofos somos obrigados a
renunciar à prioridade da contemplação
sobre a ação. E temos de concordar com Marx
que a nossa tarefa é de procurar tornar o futuro
diferente do passado ao invés de procurar conhecer
o que o futuro deve, necessariamente, ter em comum com o
passado. O papel do filósofo, desse ponto de vista,
deveria se diferenciar do papel do sacerdote ou do sábio,
com os quais sempre teve afinidade, para transformar-se
num papel social muito mais parecido ao do engenheiro ou
do médico. Enquanto os sacerdotes e sábios
podem planificar suas atividades, os filósofos contemporâneos,
como os engenheiros e os médicos, devem descobrir
o que os seus clientes precisam. Pelo fato de que em Platão
a invenção da filosofia respondia ao objetivo
preciso de escapar das necessidades transitórias
e colocar-se acima da política, o fato de que Hegel
e Darwin deram uma grande relevância ao tempo foi
muitas vezes considerado como renúncia à filosofia,
ou até como o seu fim.
Il tramonto della filosofia in senso tradizionale, per Lei,
significa anche la fine della filosofia, di un suo ruolo
e di un suo senso?
Abandonar
Platão e Kant não é a mesma coisa que
abandonar a filosofia. Hoje podemos compreender os propósitos
de Platão e Kant melhor do que eles mesmos compreenderam;
podemos interpretar suas obras como uma tentativa de responder
à necessidade de substituir a imagem que o homem
tinha de si – uma imagem que se tornou obsoleta por
causa das mudanças sociais e culturais – com
uma nova imagem, uma nova concepção do homem
que se adaptasse melhor aos efeitos dessas mudanças.
E pode-se acrescentar que a filosofia não poderá
terminar enquanto não acabarem as mudanças
sociais e culturais: tais mudanças, de fato, contribuem
para tornar obsoletas as concepções gerais
que temos de nós mesmos e da nossa situação,
determinando a necessidade de uma nova linguagem, na qual
se possa expressar novas concepções.
Somente
numa sociedade sem política, isto é, uma sociedade
sujeita a tiranos que impedem as mudanças sociais
e culturais, não há necessidade de filósofos.
Nas sociedades em que não há política,
os filósofos não podem ser nada além
de padres a serviço de uma religião do estado.
Ao contrário, nas sociedades livres, se sentirá
sempre a necessidade dos filósofos e dos seus serviços:
nessas sociedades, de fato, as mudanças nunca terão
fim e, portanto, os velhos modos de pensar e de expressar
nunca deixarão de se tornar obsoletos.
Em quais pensadores se encontra a presença
dessa idéia de filosofia?
John
Dewey, um filósofo que, como Marx, admirava Hegel
não menos do que Darwin, sugeriu que, uma vez abandonada
a concepção comum em Platão e Kant
– a concepção do homem como sujeito
voltado ao conhecimento das necessidades incondicionais
e metahistóricas –, se chegará a conceber
a filosofia como derivante do que ele chamou “um conflito
entre instituições herdadas e tendências
contemporâneas incompatíveis com elas”.
Dewey sustentou que “aquilo que pode parecer pretenciosamente
irreal, uma vez que é formulado em distinções
metafísicas, torna-se profundamente significativo
quando relacionado à luta entre os ideais e as crenças
sociais”. Dewey levava a sério a famosa observação
de Hegel de que “quando a filosofia pinta luzes e
sombras, então um aspecto da vida envelheceu”;
para Dewey isso significava que a filosofia encontra-se
sempre numa situação parasitária, que
nasce sempre como resposta a problemas surgidos anteriormente,
na cultura e na sociedade.
Para
Dewey, a insistência de Hegel sobre a historicidade
equivalia à afirmação de que os filósofos,
mais do que procurar estar na vanguarda da sociedade e da
cultura, deveriam procurar mediar entre o passado e o futuro;
sua tarefa consistiria em harmonizar velhas e novas crenças,
de modo que elas pudessem cooperar mais do que interferir
umas nas outras. Como os engenheiros e os médicos,
o filósofo pode se revelar útil para resolver
problemas particulares que surgem em situações
particulares, situações nas quais a linguagem
do passado está em conflito com as necessidades do
futuro.
Quais
são os conflitos que a filosofia deveria tentar sanar?
Gostaria
de dar três exemplos deste conflito. O primeiro diz
respeito à necessidade de conciliar as intuições
morais expressas na linguagem da teologia cristã
com a nova imagem científica do mundo surgida no
século XVII. Naquele século e nos sucessivos,
os filósofos europeus se esforçaram para encontrar
um modo de conceber as intuições morais como
algo diferente das prescrições de uma divindade
atemporal e todavia antropomorfa, uma divindade cuja existência
era difícil de conciliar com a imagem macanicista
do mundo elaborado por Galileu e Newton. Considerados nessa
perspectiva, os sistemas de Leibniz, Kant e Hegel não
são mais do que várias tentativas de conciliar
a ética cristã com a ciência copernicana
e galileiana, tentativas de evitar que estas duas coisas
apreciadas interferissem entre elas.
O
segundo exemplo é representado pela hipótese
darwiniana que considera os seres humanos como animais do
tipo mais complexo e não como animais dotados de
um ingrediente adicional chamado intelecto ou alma racional.
Esta hipótese insere dúvidas não somente
sobre a esperança de escapar do tempo, mas também
sobre a distinção entre conhecer a realidade
e adaptar-se à realidade. Darwin colocou os filósofos
na condição de ter de fornecer uma nova definição
das atividades humanas, uma definição que
não exija alguma descontinuidade na evolução
biológica. Isto significa redefinir a relação
entre evolução biológica e evolução
cultural de modo a obscurecer a distinção
entre natureza e espírito, uma distinção
que a filosofia ocidental, de Platão a Hegel, com
exceção de alguns excêntricos como Hobbes
e Hume, sempre deu por descontada. Os novos problemas diante
dos quais se encontraram os filósofos, por causa
da explicação darwiniana das origens da humanidade,
depois se entrelaçaram com os problemas determinados
pela emergência da democracia de massa, que representa
o meu terceiro exemplo sobre a novidade extra-filosófica.
Diferentemente
das duas primeiras, esta terceira novidade originou-se da
experiência política e não da pesquisa
científica. A democracia de massa, a realização
prática da idéia de que qualquer um que esteja
sujeito a decisões políticas deveria ter o
poder de influenciar sobre essas decisões, demolirá
a distinção platônica entre a busca
racional da verdade por parte do sábio e o fluxo
das paixões característico do povo. Junto
com o ofuscamento darwiniano da distinção
entre humano e animal, a prática da democracia de
massa coloca em dúvida um vasto conjunto de ulteriores
distinções, como aquelas entre cognitivo e
não cognitivo, razão e paixão, lógica
e retórica, verdade e utilidade, filosofia e sofisticaria.
O sucesso da democracia de massa deu aos filósofos
a tarefa de reformular as distinções nos termos
da diferença política entre consenso voluntário
e consenso forçado mais que nos termos de disntinção
metafísica entre incondicionado e condicionado.
Em quais filósofos emerge esta prática da
filosofia como remédio dos conflitos sociais?
Os
sistemas de Dewey, de Bergson e de Whitehead representam
tentativas de alcançar um compromisso com Darwin
na intenção de conservar o que havia de útil
nos velhos dualismos, reformulando-os numa linguagem completamente
“temporalizada”. Uma tentativa análoga
é representada pela tentativa de Russell e Husserl
de fazer uma divisão da cultura traçando uma
linha de demarcação entre questões
filosóficas a-priori e questões empíricas
a posteriori. Russell e Husserl procuravam construir uma
cultura democrática que estivesse em condições
de salvaguardar a filosofia transcendental, tornando Kant
imune a Darwin. Em tal perspectiva, o contraste entre Dewey
e Russell ou também entre Bergson e Husserl aparece
não tanto como um contraste entre duas tentativas
de delinear a exata representação da nossa
natureza ou situação meta-histórica,
quanto um contraste entre duas tentativas de fazer uma mediação
entre épocas históricas, de conciliar velhas
e novas verdades.
Dewey
e Russell tinham, em medida igual, deferência pela
mecânica newtoniana, pela biologia darwiniana e pela
democracia de massa; além disso, nenhum dos dois
achava que a filosofia poderia fornecer fundações
para estas três concepções. Ambos achavam
que a questão irrelevante fosse como mudar os modos
usual de falar, de forma a não pressupor uma metafísica
ou uma psicologia metafísica que estivesse em conflito
com um destes três produtos da evolução
cultural. A diferença entre os dois consiste nos
meios, mais do que nos fins, na forma em que julgavam necessário
mudar radicalmente as concepções de Platão
e de Kant com a finalidade de preservar o que há
de útil em suas obras, desfazendo-se do que se tornou
obsoleto.
Qual
é, então, o papel do filósofo? Ele
pode conservar um espaço autônomo de intervenção
e uma competência específica?
Uma
vez adotada a concepção que Dewey tinha da
tarefa do filósofo, teremos de abandonar tanto a
distinção marxista entre ciência e ideologia
quanto a distinção elaborada por Russell e
Husserl entre apriori e aposteriori. Mais ainda, teremos
de abandonar toda tentativa de considerar a filosofia como
uma atividade autônoma, como foi concebida até
que os filósofos começaram a levar a sério
o tempo. Dewey, mas não Russell, pode tornar sua
a idéia de Locke de que o papel do filósofo
é o de um humilde guardião que coloca em um
canto o que foi descartado do passado para dar espaço
às construções do futuro. Mas eu acho
que Dewey também teria aceitado que o filósofo
pode, às vezes, combinar o papel de guardião
com o de profeta.
Algo
como isso se encontra em Bacon e Descartes: ambos procuraram
varrer o que foi descartado de Aristóteles para dar
espaço aos ideais e às utopias do futuro.
Analogamente, a tentativa de Dewey de liberar a filosofia
da influência de Kant, a tentativa de Habermas de
solucionar o que ele chama de filosofia da consciência
e a tentativa de Derrida de libertá-la do que ele
chama de metafísica da presença, são
todas permeadas de profecias sobre a sociedade democrática,
cuja realização seria favorecida por esta
purificação da filosofia.
Portanto,
a este ponto, o senhor não admite mais nenhuma distinção
nítida entre o filósofo e o genérico
homem de cultura. Tudo isso não pode gerar confusão
e conflitos de competências?
Renunciar
a se preocupar com a autonomia da filosofia significa, entre
outras coisas, renunciar a procurar traçar linhas
claras e precisas entre questões filosóficas
e questões políticas, religiosas, estéticas
ou econômicas. A filosofia poderá atender ao
papel modesto mas essencial que foi acenado por Dewey e
conseguirá dar a justa consideração
ao tempo somente se nós, filósofos, aceitarmos
uma certa “desprofissionalização”,
se conseguirmos adquirir uma certa indiferença ao
problema de quando estamos fazendo filosofia e quando não.
Temos de deixar de nos compenetrar demais no papel, não
somente na forma muito eloquente de Hegel e Marx, mas também
na forma menos espetacular de Russell e Husserl.
Se
deixarão de identificar a nossa atividade profissional
com o pensamento racional, com o pensamento claro, então
estaremos em uma melhor posição para reconhecer,
com Dewey, que a nossa disciplina não está
em condições de planificar e organizar sua
atividade mais do que o estejam a engenharia ou a medicina.
Admitir isto nos ajudaria a nos desembaraçar da idéia
de que os desenvolvimentos científicos ou políticos
exigem fundamentos filosóficos, da idéia de
que o juízo sobre a legitimidade das novidades culturais
deverá permanecer suspenso até que nós,
filósofos, não as tenhamos reconhecido como
autenticamente racionais. Os filósofos anti-fundamentalistas,
de qualquer forma, se consideram, muitas vezes, como revolucionários,
ao invés de adeptos à eliminação
do que é descartado e refutado; ou como visionários.
Agindo
assim, eles, desafortunadamente, cometem o erro de assumir
uma postura de vanguarda. Partem da idéia de que
a linguagem e a cultura precisam de mudanças radicais
antes que as nossas esperanças utópicas possam
se realizar, e que seriam os filósofos aqueles a
quem é solicitada a tarefa de dar vida a tais mudanças.
Mas insistir no caráter radical das mudanças
não é outra coisa do que uma forma de fundamentalismo
ao avesso; isso equivale a sustentar que nada poderá
mudar nunca enquanto não mudarem as crenças
filosóficas. O espírito de vanguarda filosófica,
comum em Marx e Heidegger, a aspiração a uma
renovação total, a insistência sobre
o fato de que nada poderá mudar se não se
mudar tudo, parece-me uma tendência da filosofia contemporânea
que não se deve encorajar.
Uma
outra tendência análoga, como já acenei,
é a aspiração à profissionalização,
a aspiração a conservar intacta a nossa disciplina
e com âmbito restrito. Esta manobra defensiva aparece
evidente nos filósofos que afirmam querer limitar
os próprios interesses aos chamados de problemas
da filosofia, como se existisse um claro e bem conhecido
elenco de tais problemas, um elenco que nos teria vindo
do céu e que se transmitiria intacto de geração
em geração.
A
filosofia analítica de modelo anglosaxônico
está imune a esta concepção nociva
da filosofia como disciplina professoral e prefissional?
Esta
forma de esquivar-se do tempo e das mudanças, de
transcurar a lição de Hegel e de restaurar
a autoridade de Platão e Kant, é muito difundida
na comunidade filosófica de língua inglesa,
cujos componentes se reconhecem como seguidores da filosofia
analítica. Acredito que Hilary Putnam tenha razão
quando diz que grande parte da filosofia analítica
reduziu-se a um conjunto de controvérsias entre as
diversas opiniões de alguns professores de filosofia;
e muito justamente Putnam julga tais discussões completamente
desprovidas de significado prático e intelectual.
Neste âmbito de investigação filosófica,
a vontade de encontrar uma conciliação com
as concepções pré existentes suprimiu
a tarefa de determinar se a linguagem com a qual estas concepções
são expressas ainda sejam eficazes.
Esta
postura tende a reforçar a convicção
de que os problemas filosóficos sejam eternos, chegando
assim a considerá-los objeto de uma disciplina profissional
totalmente independente das mudanças sociais e culturais.
Esta postura e esta convicção são características
daquele período da história da filosofia que
hoje costumamos chamar “escolástica decadente”.
Toda vez que filósofos começam a levantar
a bandeira da autonomia da sua disciplina, podemos estar
certos de que se está prestes a cair no perigo da
escolástica.
E
qual é a situação da filosofia nas
outras áreas geográficas? Possuem uma conotação
nacionalística?
Assim como a filosofia de língua inglesa tornou-se
superprofissionalizada, a filosofia não inglesa muitas
vezes foi marcada por um excesso de ambição
e pela postura de vanguarda sobre a qual já mencionei.
Em autores como Heidegger e Foucault, este tipo de filosofia
produziu uma crítica radical – análoga
àquela feita por Marx em relação à
chamada cultura burguesa do século XIX – que
se distingue pelo tom de desprezo e desdenho que os marxistas
nos acostumaram. A postura de suspeita tanto quanto ao caráter
escolástico da filosofia analítica quanto
a excessiva presunção da filosofia não
analítica de vanguarda produziu, de qualquer modo,
um terceiro perigo, o do chauvinismo. Às vezes, encontramos
filósofos para os quais os seus países requerem
a produção de uma filosofia específica,
adaptada às características nacionais, como
se cada nação tivesse necessidade de uma filosofia
própria que pudesse expressar a própria e
específica experiência, da mesma forma que
sente a necessidade de ter o próprio hino nacional
ou a própria bandeira.
Mas,
enquanto se pode reconhecer que escritores e poetas podem
proficuamente criar uma literatura nacional na qual os jovens
podem descobrir as origens e o desenvolvimento do próprio
país, pessoalmente, tenho dúvidas de que uma
tarefa similar deva ser desenvolvida também pelos
filósofos. Nós filósofos somos aptos
muito mais a construir pontes entre as nações
e a favorecer iniciativas cosmopolitas, e não a contar
histórias de cunho chauvinista. Quando os filósofos
resolvem escrever coisas desse tipo, aparecem coisas péssimas,
como as histórias contadas por Hegel e Heidegger
aos alemães sobre a pressuposta superioridade da
Alemanha por efeito de uma força sobrenatural. A
minha esperança é que nós, professores
de filosofia, consigamos encontrar um modo de evitar estas
três tentações: o revolucionário
se afana para fazer da filosofia um agente de mudança
ao invés de um meio de reconciliação;
o escolástico que se afana para refugiar-se nos confins
da sua disciplina; o chauvinista que se afana e basta. Eu
acredito que deveríamos nos ater à idéia
de Dewey de que a nossa tarefa consiste em conciliar o velho
com o novo e que a nossa função profissional
consista em uma honesta mediação entre as
gerações, entre os vários setores da
atividade cultural e entre as diversas tradições.
O
problema das sociedades multiraciais e multiculturais pode
ser resolvido por um cosmopolitismo do tipo tradicional?
Esta
atividade de conciliação não pode ser
feita da mesma forma que o complacente cosmopolitismo que
se contenta com o staus quo e que o defende em nome da diversidade
cultural ou do multiculturalismo. Este cosmopolitismo complacente
manteve um prudente e respeitoso silêncio sobre o
stalinismo, e hoje mantém um prudente e respeitoso
silêncio sobre o fundamentalismo religioso e sobre
os autocratas sanguinários que ainda estão
no poder em tantas partes do mundo. A forma mais desprezível
deste cosmopolitismo é a que nos diz que os direitos
humanos vão bem para as culturas eurocêntricas,
enquanto uma eficiente polícia secreta com juízes,
professores e jornalistas ao seu serviço, junto à
eficiente prática da tortura seriam mais adequadas
às necessidades de outras culturas.
A
alternativa a este tipo de cosmopolitismo falso e auto-enganador
só pode ser uma imagem clara do que seria um futuro
autenticamente cosmopolita, a imagem de uma democracia planetária,
de uma sociedade global na qual a tortura ou o fechamento
de uma universidade ou de um jornal em qualquer parte do
mundo sejam motivo de indignação exatamente
como no nosso país. Esta futura cidade cosmopolita
poderá ser, em questões políticas,
multicultural e heterogênea enquanto se quiser, mas
em tal futuro utópico, as tradições
culturais deixarão de ter influência sobre
as decisões políticas.
Como
podemos, hoje, responder aos desafios levantados pela pobreza
e pela ânsia de solidariedade? Ainda faz sentido uma
política igualitária ou se reduziu a uma inconsistente
utopia?
Na
política não haverá mais que uma tradição,
aquela da constante vigilância sobre as previsíveis
tentativas, por parte do rico e do forte, de aproveitar
do pobre e do fraco. À tradições culturais
nunca será permitido pisar o princípio das
diferenças de John Rawls, nem de justificar a desigualdade
das oportunidades. Se uma tal utopia nunca pudesse se realizar,
nós filósofos poderemos Ter tido aí
uma parcela marginal, mas não secundária.
E exatamente como Tomás de Aquino se viu tendo de
mediar entre o Velho Testamento e Aristóteles, Kant
entre o Novo Testamento e Newton, Bergson e Dewey entre
Platão e Darwin, e Ghandi e Nehru entre a linguagem
de Locke e Mill e aquela de Bhagavadgita, assim alguém
se verá tendo de mediar entre a linguagem igualitária
desta política utópica e a linguagem explicitamente
não igualitária de tantas tradições
culturais.
Alguém
terá de conseguir, gradativamente e pacientemente,
introduzir os conceitos de igualitarismo político
na linguagem das tradições, linguagem na qual
está muito radicada a distinção entre
sábio racional e inspirado e massa irracional e confusa.
Alguém terá de conseguir nos fazer abandonar
o hábito de basear as decisões políticas
nas diferenças que se presume que haja entre pessoas
como nós, modelos paradgmáticos dos seres
humanos, e os casos dúbios de humanidade, como por
exemplo, os estrangeiros, os infiéis, os intocáveis,
as mulheres, os homossexuais, os mestiços e os deficientes
mentais. Distinções desse gênero foram
criadas ao interno das nossas tradições culturais
e fazem, portanto, parte da linguagem na qual se expressam
as nossas deliberações morais.
A
utopia que delineei não se realizará enquanto
os povos do mundo não se persuadirem de que estas
distinções não têm nenhum valor;
tal persuasão deverá se realizar de modo gradativo
e moderado, em pequenos passos, não de forma revolucionária
e em larga escala. Mas uma persuasão moderada e gradativa
é, seguramente, possível a partir do momento
que, ainda que a democracia de massa seja uma invenção
especificamente européia, a idéia de uma sociedade
cosmopolita e democrática encontra adesão
em qualquer parte do mundo. Cada tradição
cultural tem as suas histórias sobre a superior lungimiranza
da massa em relação ao sábio e sobre
a cueldade dos potentes que provoca o senso de injustiça
na maioria que se encontra submetida a eles. Em toda tradição
há histórias de matrimônios realizados
com êxito entre membros de grupos desprezados ou de
antigos ódios superados com tolerância e civilidade.
Toda cultura, não importa o quanto restrita, contém
em si elementos que podem facilmente se harmonizar com a
imagem utópica de uma comunidade política
planetária e democrática.
Qual
é o papel e a responsabilidade da filosofia hoje?
Se
é autocontraditório pensar em impor a democracia
com a força ao invés da persuasão,
de constranger homens e mulheres a ser livres, certamente
não o é pensar em persuadi-los a ser livres.
Se nós filósofos ainda temos uma função,
essa consiste exatamente nesse tipo de persuasão.
Havia um tempo em que os filósofos pensavam mais
na eternidade e menos no futuro, diferente de hoje; então
os filósofos se definiam como servidores da verdade.
Hoje tendemos a falar menos da verdade e mais da sinceridade,
menos do modo como a verdade deva chegar ao poder do que
do modo em que o poder possa ser mantido nos limites da
honestidade. Eu penso que esta seja uma mudança saudável
de perspectiva.
A
verdade é eterna e durável, mas nunca se pode
estar certo de tê-la encontrado. A sinceridade e a
liberdade são temporais, contingentes, frágeis,
mas podemos reconhecê-las quando nos deparamos com
elas. De fato, a liberdade que nós mais apreciamos
é a de ser honestos um com o outro e de não
ser penalizados por isso. Neste mundo intelectual completamente
temporalizado, um mundo no qual as aspirações
à certeza e à imutabilidade desapareceram
definitivamente, nós filósofos deveremos nos
definir como servidores da democracia. Pensar em nós
mesmos dessa forma nos ajudaria a evitar os perigos do “vanguardismo”,
do chauvinismo e do escolasticismo. E teremos de convir
com John Dewey quando afirma que “a filosofia só
pode adiantar hipóteses, hipóteses que no
entanto têm valor enquanto conseguem sensibilizar
os homens para a vida que os circunda”. Em um mundo
inteiramente temporalizado, contribuir para uma tal sensibilização
representaria tanto um respeitável objetivo para
uma disciplina acadêmica quanto uma contribuição
para o conhecimento.
(Tradução
de Isabel Cristina Santana, a partir da tradução
italiana de Antonio Rainone)