A
narrativa e a filosofia: Elementos para a análise
das “novelas filosóficas” do Programa
de Filosofia para Crianças de Matthew Lipman
Dalva
Ap. Garcia
(...)
Enfim Micrômegas disse:
- Já que sabeis tão bem o que está
fora de vós, sem dúvida sabereis melhor o
que está dentro de vós. Dizei-me o que é
vossa alma, e de que modo formais vossas idéias.
Os filósofos falaram todos ao mesmo tempo, como antes.
Mas cada um tinha uma opinião diferente. O mais velho
citava Aristóteles, outro pronunciava o nome de Descartes,
este o de Malebranche, o outro o de Leibniz, outro ainda
o de Locke. Um velho peripatético disse alto, com
toda a confiança:
- A alma é uma enteléquia e uma razão
pelo qual tem o poder de ser o que é. É o
que declara expressamente Aristóteles, página
633 da edição do Louvre.
- Não entendo bem o grego – disse o gigante.
- Eu também não- disse a traça filosófica.
- Por que então- retomou o siriano- citais um certo
Aristóteles em grego?
- É que é bom citar o que não se compreende
na língua que menos se entende – replicou o
sábio.
O cartesiano tomou a palavra e disse:
- A alma é espírito puro, que recebeu, no
ventre da mãe, todas as idéias metafísicas,
e que, ao sair de lá, é obrigada a ir à
escola e aprender de novo o que sempre soube tão
bem e que nunca mais saberá.
- Então não vale a pena que a alma seja tão
sábia no ventre da mãe, para ficar tão
ignorante quando tiver barba na cara- respondeu o animal
de oito léguas. – Mas o que é que entendeis
por espírito?
- O que é que estais me perguntando? Não tenho
a mínima idéia do que seja – disse o
raciocinador. – Dizem que o espírito não
é a matéria (...)
(Voltaire, Micrômegas, cap.VII)
O
pequeno trecho acima, extraído de um dos contos do
filósofo iluminista Voltaire, aponta para uma interessante
forma que o autor encontra para questionar as finalidades
da filosofia e dos dogmatismos filosóficos. Por outro
lado, lança alguns elementos para pensarmos o próprio
ensino da filosofia e nossa concepção do filosofar
como estudo analítico de sistemas e teorias sistematizadas
ao longo da história. Todavia, antes de iniciarmos
essa reflexão, seria pertinente oferecer ao leitor
uma síntese, do instigante trabalho de Voltaire no
conto. O personagem Micrômegas é um extraterrestre
de estatura gigantesca que chega da estrela Sirius em companhia
de um saturniano. Como gigante que é, Micrômegas
não tem apenas cinco sentidos, mal mil. Tal gigante
depara-se com alguns homens em um navio em pleno oceano
e os coloca na palma da mão. As partículas
minúsculas que falam são filósofos
e iniciam uma conversa com o gigante a fim de demonstrar
sua pretensa sabedoria. Todos falam ao mesmo tempo e iniciam
uma disputa acirrada que provoca os risos do gigante, afinal
como seres tão infinitamente pequenos podem alimentar
orgulho e pretensão tão grandes? Com dó
daqueles seres, o gigante promete entregar a seus interlocutores
em um livro, em letras bem miúdas, a resposta da
finalidade de todas as coisas. Os filósofos levam
o livro à Academia e em abertura solene descobrem
que o livro está inteiramente em branco. Como podemos
interpretar o conto de Voltaire? Ironia, sarcasmo ou descrença
na filosofia?
A
obra de Voltaire só pode ser interpretada em sua
época, a idéia de uma razão crítica
tem na história e no reconhecimento de suas limitações
a sua arma para lutar contra a intolerância e para
fazer do filosofar ação capaz de mudar a história.
Crítico ferrenho dos grandes sistemas filosóficos,
o autor se nega a construir o seu, antes coloca todos sobre
o crivo da razão. Neste sentido, os contos de Voltaire
são fascinantes. Seus personagens são viajantes,
a aventura da viagem permite descobrir o mundo e traz elementos
importantes para a reflexão: comparar, opor, duvidar,
ver de outras perspectivas que não seria possível
se não saíssemos do lugar. O diálogo
entre os personagens revela e desvela as diferentes posições
e o absurdo do fim do enredo. Seria, então, a filosofia
enredo que não tem fim? Ou enredo que se faz no tempo
e na história vivida que, por ser história,
não pode ter um fim único? Se não há
um fim único e último, qual a finalidade da
filosofia?
Os
educadores envolvidos com o Programa de Filosofia para Crianças,
freqüentemente colocam essa questão em sua prática
pedagógica. Alguns se vêem como os filósofos
do conto de Voltaire e encerram a discussão na citação
de obras e autores, afirmando não ser a filosofia
coisa de crianças ou de meros mortais. Outros, como
o gigante do conto, tomam os pequenos nas palmas da mão
e se deliciam com sua ignorância. Há ainda
aqueles que abrem os livros nas academias e que inconformados
com os espaços vazios da falta de sistemas, interpretam
o vazio à luz de algum sistema. As três posições
aqui apresentadas não respondem a pergunta anterior,
ou seja, para que filosofia, ou melhor, para que filosofia
nas escolas?
Há
claramente na obra de Lipman a crença na razão
crítica capaz alterar o paradigma educacional de
transmissão do conhecimento, tal como na obra de
Voltaire há a luta acirrada contra os sistemas filosóficos
acabados. A filosofia na escola, de forma sumária,
deve estimular o uso de ferramentas que permitam a reflexão,
tais como: o conhecimento dos pressupostos e princípios
que sustentam nossas crenças e reconhecimento dos
limites desses princípios, a busca de critérios,
a possibilidade de opor, comparar, aprofundar a investigação
e evitar os dogmatismos. Ora, se é efetivamente essa
a finalidade da filosofia, como aproximá-la de jovens
e crianças? A resposta de Lipman é “tornando-a
significativa”, tornando-a movimento constante de
busca de significados na experiência concreta e cotidiana.
O desafio,neste caso, é transformar a aula de filosofia
em movimento dialético entre os princípios
e regras da razão e a busca criativa de significados,
entre o geral e particular, entre o concreto e o abstrato.
“Os
significados não podem ser partilhados. Eles não
podem ser dados ou transmitidos às crianças.
Os significados precisam ser adquiridos; eles são
captados e não dados. Temos que aprender como estabelecer
as condições e oportunidades que capacitarão
as crianças, com sua curiosidade natural e ansiedade
por significados, a se apoderarem das pistas adequadas e,
por si mesmas, imprimirem significados as coisas”.(A
filosofia na sala de aula, p.32)
“Geralmente
as crianças têm curiosidade sobre o mundo,
e essa curiosidade se satisfaz parcialmente com informações
factuais e explicações que lhes dêem
as causas ou propósitos das coisas. Mas às
vezes as crianças querem mais. Querem interpretações
simbólicas e não só interpretações
literais. Para isso voltam-se para a fantasia, para os jogos,
para os contos de fada, para o folclore – para os
inúmeros níveis da invenção
artística.(...) O folclore infantil é às
vezes grosseiro e, geralmente, simplório, mas uma
coisa ele não é: não é literatura
escrita para crianças por adultos. Por outro lado,
a literatura infantil geralmente é escrita para crianças
em vez de pelas crianças... Ao contar uma história
devíamos saber o que estamos fazendo. O conto de
fadas é cativante e sedutor. Ele fascina os ouvintes
e encanta desde as primeiras palavras “Era uma vez”
. Encontramos muito prazer na criatividade com que nos expressamos
nessas histórias. Mas será que ao imaginar
por elas não estamos privando as crianças
da sua imaginação? Se os adultos devem escrever
para as crianças deveriam fazê-lo só
o necessário para liberar seus poderes literários
e ilustrativos. (A filosofia na sala de aula, p.59 e 60).
Ora,
esses recortes podem nos revelar uma descoberta surpreendente
no que se refere ao uso da narrativa no Programa de Filosofia
para Crianças, ou seja, há uma relação
íntima entre a própria finalidade da filosofia
na sala de aula e a forma com que Lipman utiliza para obter
seus fins, a “novela filosófica”. Se
considerarmos que a proposta filosófico-educacional
de Lipman ultrapassa o entendimento da filosofia enquanto
racionalidade lógica que se constitui meio para fazer
com que os alunos pensem bem, ou seja, como ginástica
intelectual, mas abrange também uma preocupação
com o universo simbólico dos significados, as novelas
filosóficas precisam deixar de ser compreendidas
apenas como instrumentos para se chegar às temáticas
filosóficas, mas precisam ser examinadas como parte
integrante de um projeto educacional que vê na aproximação
entre literatura e filosofia à superação
da dicotomia entre o pensar crítico e o pensar criativo.
Neste caso, as novelas não apenas seriam pretextos
para o diálogo, mas texto que se abre ao leitor enquanto
reflexão e imaginação, enquanto promessa
de criação.
“Achamos
que nossos livros infantis despertam a imaginação
das crianças em vez de frustrá-las. Nosso
propósito não é estabelecer uma literatura
infantil imortal, mas levar as crianças a pensarem.
Se esse objetivo for atingido, o instrumento pode se autodestruir,
como um fósforo que se extingue ao ser aceso. Se
nossa abordagem está correta, o conto de fadas e
o livro-texto escrito por profissionais podem ser, substituídos
por livros infantis escritos pelos professores e pelas próprias
crianças, incorporando a imaginação,
as idéias e a compreensão que essas crianças
adquiriram em cada estágio de seu desenvolvimento.
O importante é que a imaginação se
desprofissionalize: que as crianças sejam incentivadas
a pensar e criar por elas mesmas. Há algo de doentio,
quase parasitário, na idéia de os adultos
tentarem se agarrar à sua criatividade e frustar
a de seus próprios filhos. Porém até
que possamos planejar meios efetivos de ajudar as crianças
a pensarem por si mesmas, o mínimo que podemos fazer
é escrever livros que promovam a sua criatividade
em vez de diminuí-la.”( A Filosofia na sala
de aula, p. 61)
A
afirmação acima, não apenas coloca
a novela filosófica como obra aberta, mas também
desmitifica a idéia que toda e qualquer literatura
de boa qualidade serviria aos propósitos do Programa
de Filosofia para Crianças. Assim como Sartre, Lipman
recusa a idéia de narrador onisciente, que tudo sabe
e que dirige as ações e pensamentos de seus
personagens. A qualidade literária para as finalidades
que se quer atingir não pode ter como critério
a totalidade da obra ou a unidade do belo, como no romance
tradicional, mas deve atender a uma multiplicidade de visões,
de estilos do pensar numa perspectiva dialógica,
capaz de superar a dicotomia entre o pensar crítico
e criativo.
Parece-me
que é, justamente o entendimento da filosofia enquanto
reflexão aberta, que faz o uso da narrativa em Lipman,
algo que merece mais atenção, pois nos remete
a idéia de busca significados que se constrói,
para aqueles que não tem familiaridade com o universo
conceitual das tradições filosóficas,
em universo simbólico. No prefácio do livro
“A filosofia na sala de aula” afirma que na
maior parte da história da civilização
ocidental, a literatura e a filosofia foram estranhas entre
si, o que não acontecia nos séculos em que
emergia a filosofia na Grécia. O exemplo de Homero,
o tratamento que dá a guerra para além da
nacionalidade e da parcialidade, revela uma forma de narrar
de um povo que queria saber a verdade sobre si mesmo, não
importando a dor que isso causasse, tal como o protagonista
de Édipo Rei. Ainda buscando uma aproximação
entre literatura e filosofia, afirma que a filosofia dos
pré-socráticos era filosófica em sua
originalidade e autonomia, científica em seu interesse
de propor afirmações sobre a natureza das
coisas e artística em seu modo de apresentação.
Era simples em vez de técnica e esotérica,
não era limitada a “uma elite técnica”,
nem tampouco, a uma “minoria monástica”.
“Os aforismos eram ricos e multinivelados –
ainda que em alguns níveis ninguém pudesse
compreendê-los” (Filosofia na sala de aula,p11).
Ainda no mesmo prefácio, podemos ler:
“No
século VI, antes de Sócrates, cada filósofo
emitia seus próprios pronunciamentos como se só
ele existisse; a filosofia precisa de um impulso mais dialético.
Foi a literatura e o teatro que primeiro forneceram o que
era necessário. Graças a Ésquilo, Sófocles
e Eurípides, os filósofos foram capazes de
aprender organizar as idéias teatralmente; como colocá-las
em animada interação. E ninguém assimilou
mais essa lição do que Platão...Desde
Platão, poucos foram os esforços para apresentar
a filosofia como disciplina acessível ao povo, e
ainda possuidora de autenticidade e integridade. Ainda assim,
devemos nos lembrar da experiência grega e aplicar
seu ensinamento ao problema de nossa época. Também
nos encontramos numa sociedade filosoficamente privada –
extensa em conhecimento, mas curta em sabedoria.”
Todavia,
é no livro “O pensar na Educação”
que Lipman não apenas defende a aproximação
entre a narrativa e a filosofia, como esboça o que
denominou na obra como um modo híbrido de narrar.
No capítulo 13 da obra, o autor após algumas
considerações sobre a fragmentação
do currículo, inicia uma análise da narrativa
a partir do trabalho de Suzzane de Castell que busca abordar
o fracasso da filosofia da educação a partir
do texto escrito. A analise aborda o impacto epistemológico
da invenção da escrita, que provoca uma transformação
da mente do mundo homérico para o mundo platônico.
Tal transformação provoca um movimento do
trabalho concreto das informações para o domínio
abstrato, uma vez que as referências de tempo e espaço
são substituídas pelo absoluto, pelo duradouro,
pelo universal e necessário. A descrição
da conduta presente na narrativa é substituída
pelo conhecimento abstrato, o conhecimento é isolado
de seu ambiente e identificado em si mesmo. Feitos são
substituídos pelos saberes, a teoria substitui a
prática. Segundo a autora, a tentativa dos filósofos
da educação em conceitualizar as múltiplas
atividades práticas do profissional de acordo com
princípios teóricos não pode ter êxito.
Lipman estende a crítica, ou melhor, altera seu foco,
utilizando o mesmo argumento direcionado aos formadores
dos currículos e aos escritores de livros didáticos.
Afirma que é preciso mudar a natureza do texto. “Principiantes
(independentes de serem crianças ou adultos) podem
muito bem começar com “o justo Agamenon fez
isto ou aquilo” ao invés de “A justiça
é isto ou aquilo”(O pensar na educação,
p. 309). Em seguida, faz uma interessante análise
do foco narrativo. Antes começar com a narração
em primeira pessoa do que em terceira pessoa, uma vez que
para crianças a terceira pessoa pode aparecer como
a voz da autoridade, objetiva, parcial e legítima.
É preciso passar da narração em primeira
pessoa para terceira, da narração para a descrição,
pois assim como a fala precede a escrita, a narração
precede a descrição. Poderíamos supostamente
afirmar que Lipman considera a passagem da narração
para a descrição quase como um processo evolutivo
do pensamento concreto para o abstrato, afirma: “Não
é necessário fazermos nenhuma concessão
extraordinária para a tese de que o desenvolvimento
de uma criança recapitula o da espécie a fim
de aceitar o fato de que, do ponto de vista educacional,
a fala precede a escrita e a narrativa precede o descritivo”.
Se esta razão parece por si mesma evidente, a quais
fatores se atribuiria a recusa da narração
como texto a ser utilizado nos currículos das escolas?
Entendemos a escola como lugar da investigação
séria, do estudo sério. Por outro lado, entendemos
a literatura como ficção, entretenimento.
A literatura não contém informações
consistentes, não contém fatos, fatos são
conhecimentos e por isso colocamos nossos filhos na escola,
para que adquiram conhecimentos. A descrição
surge como estilo adequado do texto a ser utilizado, pois
revelará o que existe de fato ao leitor. Ele deverá
antes estudar muito, mais do que pensar muito. A descrição
seria a forma mais confiável de enfrentar o mundo
tal como ele é e não como fantasia. Lipman
nos chama atenção que este argumento aparece
de natureza epistemológica, mas no fundo revela-se
moral. Afirma: “a descrição é
sensata, a narrativa excitante; a descrição
é objetiva e reservada; a narrativa é atraente
e sedutora... Para o puritano atento dentro de nós,
a literatura faz mais do que oferecer-nos outros mundos
pelos quais possamos perambular. Ela nos sugere outros modos
de vida e outras maneiras de pensar o mundo no qual vivemos,
maneiras que podem estar em desacordo com o bom senso e
com os costumes vigentes.” (O Pensar na Educação,
p. 312). O contraponto a esse argumento seria que se trata
de dois gêneros diferentes (a descrição
e a narrativa) que atende a dois objetivos diferentes. Como
utilizar a narrativa como texto? Lipman afirma que a narrativa
como texto literário já foi criada, deveríamos
utilizá-lo como modelo para nossos objetivos. Quais
são eles? Desenvolver o pensar de ordem superior,
textos capazes de modelar tanto a racionalidade quanto à
criatividade.
“Nas
situações típicas em que o pensar ocorre,
a racionalidade busca fechar-se no monólogo, e a
criatividade apresenta-se no diálogo. A racionalidade
invoca critérios do alto,e a criatividade invoca
intuições terrenas... O monólogo e
o diálogo, a racionalidade e a criatividade são
simplesmente a urdidura e a trama da estrutura do pensar.”
(O Pensar na educação, p. 313)
Desta
forma, podemos pensar que a narrativa não é
apenas uma das formas de aproximar crianças e filosofia,
mas interação entre o pensar crítico
e o pensar criativo. Nesta concepção a literatura
não deve substituir o texto filosófico como
forma de agradar crianças, jovens ,ou seja lá
quem for. A narração, com este fim deve ser
pensada para além do romance, deve conter elementos
que favoreçam o processo do pensar de ordem superior
e deve ser modelo deste processo, dever ser uma “comunidade
de investigação fictícia” que,
segundo Lipman, deve apresentar pelo menos três características:
1) Aceitabilidade literária: deve ter qualidade literária
satisfatória.
2) Aceitabilidade psicológica: devem ser adequados
à idade das crianças a que se destinam, mas
não devem ser condescendentes do ponto de vista intelectual.
3) Aceitabilidade intelectual: Deve apresentar problemas
dotados de significado na história como um todo e
na própria essência da narrativa, o texto deve
ser dialógico, apresentar ambigüidades, insinuações,
ironias...
Lipman refuta claramente a tese de onisciência do
narrador ao afirmar que uma das vantagens do texto dialógico
é que os autores não têm que lidar com
as exigências acerca da verdade do autor. O diálogo
eliminaria a vantagem cognitiva e neutraliza o poder quase
divino do autor. Há mais duas vantagens neste caso,
a primeira se refere a intima relação entre
o processo mental e a temática discutida e a segunda
se refere à relação entre pensamento
e conduta dos personagens, o que resultaria em um impacto
total sobre o leitor, pois se alcançaria um equilíbrio
cognitivo – afetivo.
Todavia,
a defesa da narração revela seus limites quando
Lipman busca distinguir o texto como sistema de conceitos
e como esquema. A descrição e a explicação
apelam para a apreensão do que se escreve como conceitos
e a narração apela para a compreensão
enquanto movimento. A narrativa emprega esquemas e nos impulsiona,
mas também oferece perigos: pode tanto ser usada
para estimular a criatividade e o pensar como para incutir
preconceitos. Há aqui o perigo da sedução,
as propagandas são esquemáticas em sua forma
e manipulativas em suas funções, pois não
podem ser contrariadas pela razão. Conclui Lipman
que o “texto do futuro” deverá ser híbrido,
equilíbrio entre o narrativo e descritivo, entre
o conceitual e o esquemático, entre o crítico
e o criativo.
“O crítico deve voltar-se para o criativo a
fim de salvar-se da prisão do vazio rigoroso, e o
criativo deve sempre voltar-se para o crítico para
salvar-se das areias movediças da expressão
amorfa e da especulação sem movimento seguro.”
(Pensar na Educação, p. 321)
Há
aqui um ensaio de um modelo de texto que não apenas
seja trampolim para o diálogo, mas que em sua forma
seja dialógico. De um gênero capaz de fazer
viver a experiência do mundo em sua multiplicidade
e contingência e ainda assim ser capaz de não
renunciar a busca do rigor. Em “Natasha” quando
supostamente indagado sobre as conseqüências
da substituição da prosa acadêmica para
a conversa informal, Lipman fala da substituição
do esotérico para o exotérico, afirmação
tão enigmática e intrigante quanto o livro
em branco do gigante Micrômegas do conto de Voltaire.
Talvez possamos entendê-la como a possibilidade da
filosofia se fazer viva e instigante para além da
pretensa sabedoria.
Bibliografia
Lipman, Matthew. A filosofia na sala de aula – São
Paulo: Nova Alexandria, 1994.
______________. Natasha: Diálogos Vygotskianos –
Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
______________. O Pensar na Educação –
Petrópolis. RJ: Vozes, 1995
Nascimento, Maria das Graças S. do. Voltaire: a razão
militante – São Paulo: Moderna, 1993. (Col.
Logos)