Novela escrita por Matthew Lipman, indicada para adolescentes
de 11 a 13 anos, narra a aventura de um garoto que, surpreso
com uma questão formulada pelo professor em um momento
de distração em sala de aula, busca com seus
amigos os caminhos para compreender as regras de um bom
raciocínio.
Um
dos principais objetivos do programa Ari é que os
alunos aprendam a pensar e a pensar sobre o pensar. Por
isso, Ari propõe princípios e práticas
que propiciam o raciocínio estruturado e busca oferecer
aos alunos familiaridade com a sequência de idéias
lógicas. Sua ênfase está na lógica
formal, na lógica das boas razões e na lógica
do agir. Esta novela nos apresenta uma introdução
à investigação filosófica, problematizando
temas de Ontologia, Antropologia, Teoria do Conhecimento,
Ética, Estética, Fenomenologia, Política,
Linguagem e Educação.
A
lógica da investigação científica,
presente em Ari, é uma clara referência à
Lógica da descoberta científica de Karl Popper.
Em várias passagens, Ari e seus amigos discutem sobre
a origem e realidade dos pensamentos - tema que ocupou um
lugar destacado entre as obras dos filósofos do século
XVII, tais como Descartes, Hume, Locke, Espinosa, Leibniz
entre outros. Há também a discussão
ética sobre padrões culturais, relações
de poder na escola e o conflito entre diferentes padrões
éticos. A narrativa salienta o valor da investigação,
encoraja o desenvolvimento de modelos alternativos de pensar
e imaginar, e mostra como as crianças e jovens são
capazes de aprender uns com os outros.
O
texto completo de A Descoberta de Ari dos Telles possui
17 capítulos. Este material é previsto para
ser trabalhado com os alunos durante dois anos.
Vejamos
um pequeno trecho da novela:
(...)
"-
Quando você fala em pensamento, o que você quer
dizer? Os pensamentos que temos na nossa cabeça,
como idéias, lembranças, sonhos e coisas assim,
ou o modo como pensamos?
-
O que você quer dizer com o modo como pensamos? perguntou
Júlia.
-
Era sobre isso que o Ari e eu estávamos conversando.
É o que chamamos de pensar nas coisas até
entendê-las. Quando você já conhece uma
coisa e quer saber mais sobre o que você já
conhece, você tem que pensar. Você tem que decifrar
as coisas, disse rapidamente Luísa.
-
Mas ter pensamentos é diferente de realmente pensar.
Minha cabeça está sempre cheia de pensamentos.
Eu não sei de onde eles vêm. Acho que são
como as bolinhas do meu refrigerante. Elas simplesmente
vêm do nada, disse Fabiana.
-
Eu não penso assim. Para mim, os pensamentos são
como morcegos, dormindo pendurados de ponta-cabeça
numa caverna escura. Eles acordam de noite e ficam se debatendo
dentro da caverna, fazendo um barulhão danado e eu
não consigo dormir por causa dos pensamentos que
passam pela minha cabeça. Mas, às vezes, um
deles sai da caverna e se transforma num pássaro,
que voa livre e solto e, sem ter nada que o prenda, vai
embora, e pode seguir seu caminho até onde quiser,
disse Julia tranqüilamente.
-
Minha cabeça é como um mundo particular. É
como o meu quarto. No meu quarto tenho meus brinquedos e,
às vezes, pego um ou outro para brincar. Faço
a mesma coisa com os meus pensamentos. Tenho os meus pensamentos
prediletos e tenho outros que nem gosto de lembrar, disse
Luísa.
-
Mas os pensamentos não são reais, quer dizer,
não são reais como as coisas do seu quarto.
O meu pensamento do Pingo não é o Pingo. O
Pingo real é cheio de pêlos, e o meu pensamento
do Pingo não é peludo, comentou Júlia.
-
Mas é um pensamento real, retrucou Fabiana.
-
Você quer dizer que, se seu pensamento é parecido
com alguma coisa que existe, então ele é apenas
uma cópia ou imitação e não
é real? Assim, se existe um cachorro chamado Pingo,
então meu pensamento do cachorro não é
real porque é só uma cópia do cachorro?
Mas eu tenho uma porção de pensamentos que
não são cópias de nada! argumentou
Luísa.
-
O que, por exemplo? perguntou Júlia.
-
Os números! Você já viu um número
passeando pela rua ou parado por aí? O único
lugar em que os números são reais é
na minha cabeça. E aposto como tem muitas outras
coisas que também só são reais na sua
cabeça, respondeu Luísa, triunfante.
-
Tá bom! E os sentimentos? Quando me sinto triste
ou feliz, será que esses sentimentos não estão
só na minha cabeça? Eu também nunca
vi um sentimento passeando pela rua! interrompeu Fabiana."
(LIPMAN,
M. A Descoberta de Ari dos Telles, cap. 3, pp.12 e 13)
Diante
deste pequeno trecho de um capítulo da novela, os
alunos se apropriam da problemática levantada pelas
personagens e partem para uma investigação
filosófica acerca dos pensamentos.
Vejamos
uma atividade, retirada do livro do professor, que poderia
ser desenvolvida com os alunos para iniciarmos a investigação
sobre a origem dos pensamentos e como pensamos.
Plano
de discussão: Como Pensamos?
1.
De onde vêm nossos pensamentos?
2.
Eles se originam em nossas próprias cabeças?
3.
Você consegue pensar em algum pensamento que você
mesmo tenha criado?
4.
Os nossos pensamentos são estimulados pelas coisas
que vemos, coisas que nós experienciamos no mundo?
5.
Como as pessoas aprendem a pensar? As pessoas precisam aprender
a pensar ou é uma coisa que os seres humanos fazem
naturalmente?
6.
Alguns pensadores antigos achavam que a mente humana era
como papel em branco onde eram "escritas" as experiências.
O que você acha disso?
7.
Para outros pensadores a mente humana não era algo
a ser estimulado pela experiência. Acreditavam que
os pensamentos são anteriores a qualquer experiência.
Diziam: "Uma pessoa precisa ter pensamentos a fim de
dar sentido as suas experiências". O que você
acha disso? A mente pode ter pensamentos sem ter tido experiência
alguma antes?
8.
Você acha que precisamos ter experiências antes
de ter pensamentos?
(LIPMAN,
M. Investigação Filosófica. p.41)
Exercício:
A realidade dos pensamentos
Alguns
de nossos pensamentos parecem ser cópias de coisas
que realmente existem no mundo, enquanto que outros parecem
surgir de dentro de nossas próprias mentes. Neste
capítulo Luísa e Fabiana dizem que o pensamento
do cachorro é uma cópia de alguma coisa que
existe no mundo, mas o pensamento dos números não
é. Dos pensamentos abaixo, diga se são sobre
algo que existe no mundo ou não. Justifique.
a.
Pensamentos sobre um jantar delicioso.
b.
Pensamentos sobre o que se sente quando se leva um tiro.
c.
Pensamentos sobre o que se sente quando se está apaixonado.
d.
O pensamento de um patriota sobre o que é liberdade.
e.
O pensamento sobre o filho que talvez tenha um dia.
(LIPMAN,
M. Investigação Filosófica. pp.42 e
43)
Para
iniciar o trabalho, em sala de aula, com a novela A Descoberta
de Ari dos Telles, é necessária a participação
no Módulo II – Investigação filosófica
– do curso de Formação em Filosofia
para Crianças.