Issao e Guga


- Maravilhando-se com o Mundo -


Nesta narrativa, escrita por Matthew Lipman, para alunos de 1ª e 2ª séries do Ensino Fundamental, as personagens Issao e Guga nos contam sobre umas férias inesquecíveis que viveram juntos. Issao visita a fazenda de seus avós e torna-se amigo de Guga, que mora com sua família ali perto.

O avô de Issao, que já foi marinheiro, conta sobre um encontro que teve com uma baleia e diz que gostaria de visitar um lugar onde pudesse, novamente, observar as baleias. Issao o convence a fazer esta viagem e levar a família de Guga.

A maneira como Issao e Guga demonstram interesse por animais, pela noção de espaço e tempo e por muitos outros aspectos da natureza, faz deste texto uma introdução ideal à investigação sobre as relações entre a linguagem, o mundo e as diferentes formas de percepção.

As questões sobre o conhecimento humano, as preocupações com a ecologia, a reflexão sobre o belo, o real e a verdade são temáticas que permitem às crianças o contato com o espanto que dá origem ao filosofar, com o "maravilhar-se com o mundo", como afirma Lipman. Há, nesta novela, uma ênfase nas questões da fenomenologia da percepção. Como percebemos o mundo? Será que o mundo é tal qual vemos? Qual a relação entre os objetos e o que percebemos através dos sentidos? Questões como essas são discutidas na filosofia desde Platão e Aristóteles até Merleau-Ponty. Estes estavam preocupados em estabelecer qual a relação entre as coisas e as idéias que temos delas. Foi Kant, porém, que formulou uma teoria mais acabada sobre a relação entre os fenômenos (aquilo que percebemos através dos sentidos) e as coisas, colocando em questão se o mundo é uma construção do sujeito e, neste caso, como poderíamos ter acesso às coisas-em-si.

O texto completo de Issao e Guga possui introdução e mais dez capítulos. É previsto para ser desenvolvido durante dois anos.

Vejamos um trecho de um episódio da novela em que Issao dialoga com outros personagens:

(...)

" Perto da mesa onde estávamos sentados tinha um porta-guarda-chuvas. Ele tinha uma placa que dizia: "Olhe seu guarda-chuva". O porta-guarda-chuvas estava vazio, porque o dia estava bonito.

Como a placa estava me incomodando, falei:

Vô, por que está escrito "Olhe o seu guarda-chuva"?

Porque ele pode desaparecer.

Por isso eu acho que tem coisas no mundo que desaparecem se a gente não ficar olhando. Isso não é esquisito?

Satie me chama da cozinha e interrompe os meus pensamentos. Me levanto da cadeira perto da janela, onde eu estava sentado de pernas cruzadas, e começo a correr pela sala. Mas tropeço no tapete e esbarro numa das plantas da vovó. Satie entra, vê a sujeira e fala:

Vou pegar a vassoura.

Satie vai até o armário, mas a vassoura não está lá.

Não entendo. Ela sempre está aqui. Onde será que ela está? Não pode ter simplesmente desaparecido.

Ou será que pode? E aqueles guarda-chuvas? E se vassouras são do mesmo jeito e só ficam no lugar enquanto tem alguém olhando? Conto pra Satie o que estou pensando.

Ah, não faz diferença se tem alguém olhando ou não. A vassoura não pode sair andando. Ela fica onde foi colocada.

Mas, Satie, como a gente pode ter certeza disso? Pelo que eu penso, talvez o mundo todo desapareça quando ninguém estiver olhando.

Satie dá um suspiro e diz:

Issao, se não tinha ninguém olhando quando o mundo desapareceu, ninguém ia saber a diferença, né?

Então ela dá uma risada e acrescenta:

Olha só, a vassoura está aqui, entre a parede e a geladeira.

Acho melhor a gente ficar de olho nela. Da próxima vez que ela sumir, pode ser que não volte, qualquer que seja o lugar onde a gente procure.

Guga entra. Conto pra ela a história do porta-guarda-chuvas e da vassoura. Ela bate palmas e diz:

Ah, eu sei o que você quer dizer. Isso acontece comigo o tempo todo. Quando não posso pôr a mão nas coisas, não posso ter certeza de que ainda estão lá. É por isso que eu sempre adoro sentir o chão embaixo dos meus pés, e pôr a mão nas mesas e cadeiras e em todos os outros tipos de móveis que há no mundo. Fico sempre tão apavorada quando não tenho nada para pôr a mão, porque tenho medo de que o mundo tenha simplesmente saído andando.

Satie parece um pouco preocupada e diz:

Mesmo assim, Guga, você sabe que ele está aí, não sabe? Você não acredita, realmente, que ele desaparece? Acredita?

Guga ri e fala:

Ele não desaparece porque para mim, ele nunca apareceu. Ele só aparece pras pessoas que podem ver.

Belé entra e senta no colo de Guga.

Ei, Belé, você está aqui. Sei que você estava lá fora caçando passarinhos outra vez.

Você não vê o Belé caçando passarinhos. Mas você sabe que ele caça, Guga.

Bom, é isso que você e Satie me dizem que ele faz e, se vocês dizem, eu acredito. Mas isso não impede que eu fique pensando para onde a noite vai quando é dia, ou para onde vai o frio quando um sorvete derrete, ou de onde vem o sabor quando sua avó faz o pão. Vocês me dizem que a grama é verde, mas ela é verde durante toda a noite ou deixa de ser verde à noitinha e volta a ser verde de manhã?

Satie senta no chão ao lado da cadeira em que Guga está sentada:

É assim que você entende as coisas, Guga? Que as cores que não vemos, os sons que não ouvimos e os sabores que não sentimos estão todos fora, em algum lugar, esperando sua vez?

(LIPMAN, M – "Issao e Guga", capítulo 5, pp 30, 31 e 32)

Nesse trecho, as personagens fazem uma reflexão acerca das relações entre o sujeito que percebe e o objeto percebido. Qual o papel da percepção do sujeito na realidade das coisas? Seria o mundo uma mera construção do sujeito; são os objetos que se oferecem ao conhecimento do sujeito ou há uma relação entre o sujeito e o objeto? Estas temáticas do campo da teoria do conhecimento e epistemologia foram abordadas por diversos pensadores ao longo da história, como Descartes e Kant.

O material de apoio para o professor apresentará sugestões de planos de discussão e exercícios que permitirão adaptar esses problemas ao universo das crianças.

Vejamos um exemplo:

Plano de discussão:
As coisas desaparecem quando não tem ninguém olhando?

1.Existem coisas que desaparecem independente de ter, ou não, alguém olhando? Que tal uma poça d’água num dia de sol? Você pode dar outros exemplos?

2. Existem coisas que não desaparecem, mesmo que não tenha ninguém olhando? Que tal a gravidade? Ou seu próprio corpo? Você pode dar outros exemplos?

3. Existem coisas que só desaparecerão se tiver alguém olhando? Que tal um roubo?

4. Existem coisas que desaparecerão se não tiver ninguém olhando? Que tal jóias?

5. Existem coisas que só existem se tiver alguém olhando? Que tal programas de televisão?

6. Existem coisas que só existem se não tiver ninguém olhando? Que tal sua privacidade?

(LIPMAN, M. Maravilhando-se com o Mundo, p.199)

Exercício:
As coisas existem quando não são observadas?

1. O Sol 6- O arco-íris
2. A chuva 7-Seus medos
3. Sua bicicleta 8- Seus pensamentos
4. Seu jantar 9- Sua classe
5. Seu Programa Favorito na TV 10- Sua família

(LIPMAN, M. Maravilhando-se com o Mundo, p.204)

Para se iniciar o trabalho, em sala de aula, com a novela Issao e Guga, é necessária a participação no Módulo I – Introdução à reflexão filosófica, do curso de Formação em Filosofia para Crianças.


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