A Descoberta de Ari dos Telles


- Investigação Ética -


Novela escrita por Matthew Lipman, é indicada para adolescentes de 13 a 15 anos. Como saber o que é certo ou errado? O que é liberdade? O que é justo? Estas e outras questões instigam os personagens da novela e levam os alunos a percorrer os caminhos da investigação ética. Luísa retoma algumas das questões lógicas que já apareceram em Ari e introduz as questões éticas que são o tema dominante de toda novela. Nela, são tratados os mais diversos temas éticos que foram discutidos por muitos filósofos, e, ainda hoje, estão presentes no nosso cotidiano. Há uma referência à discussão entre Parmênides e Heráclito sobre o ser e o não-ser, aos paradoxos de Zenão de Eléia sobre a impossibilidade do movimento, à discussão sobre determinismo e liberdade tal como foi abordada na Ética de Espinosa, que trata especificamente sobre o livre-arbítrio, à relação entre intenção, ação e conseqüências, tema presente na Teoria da Vida Moral de John Dewey e em Ciência e política, duas vocações, de Max Weber.

Em Luísa, o diálogo entre os personagens é referência para o diálogo na sala de aula na busca dos critérios para a construção dos juízos morais, do entendimento e avaliação das ações morais que cercam o cotidiano.

O texto completo de Luísa possui 11 capítulos subdivididos em 29 episódios. O trabalho com a novela é previsto para dois anos.

Vejamos um exemplo, a partir de um pequeno trecho da novela:

No episódio 9, Toninho fica sabendo que foi envolvido em uma intriga e que foi intimado a se encontrar com Sérgio, no dia seguinte, para tirar a limpo a confusão. Marinho, Luísa e Ari ficam conversando com Toninho sobre o possível desfecho da situação criada.

(...)

"- Olha! – disse Toninho já impaciente – das duas, uma: ou vai haver briga ou não vai haver briga. Essas são as duas únicas possibilidades. Se não houver briga, eu não tenho nada com que me preocupar. E, se houver...eu sei me cuidar.

Então, o que você está dizendo é "o que será, será"? – acrescentou Ari.

É, acho que sim.

Então, – disse Ari continuando seu pensamento – o que quer que aconteça amanhã, já está decidido?

Eu não disse isso. Onde você quer chegar?

O que eu quero dizer é que mesmo que a gente não saiba o que vai acontecer amanhã, será que o que vai acontecer já não está decidido? Tudo que podemos dizer é que amanhã tanto pode haver uma briga como pode não haver. É só isso que podemos saber a partir da regra que a Fabiana e a Luísa descobriram. As duas coisas são possíveis. Mas, na verdade, apenas uma delas vai realmente acontecer. Nós não sabemos qual. Portanto, talvez o que vá acontecer já esteja decidido.

Não! Vocês estão enganados. O futuro não está absolutamente decidido. É verdade que amanhã tanto pode haver uma briga, como pode não haver. Mas, em ambos os casos, qualquer coisa ainda é possível – disse Toninho.

Eu não concordo.Eu acho que o que vai acontecer já está bem claro. Olha, vamos supor que eu fique gripado amanhã. Isso significa que as condições para que eu fique gripado amanhã já estão presentes hoje, certo?

Certo – disse Ari.

Então, se um médico me examinar cuidadosamente hoje, ele pode dizer se eu vou ficar gripado amanhã, do mesmo jeito que o homem do tempo pode prever as tempestades. Eu acho que o futuro já está decidido, inclusive o que vai acontecer com você amanhã, Toninho.

E você Luísa, o que você acha? – Ari perguntou.

Eu concordo com o Toninho. Qualquer coisa pode acontecer. E você, o que acha?

Não sei não. Enquanto eu ouvia o Toninho falar, eu achei que ele estava certo e enquanto eu ouvia o Marinho, eu achei que ele estava certo. Mas, se eu tivesse que decidir, acho que concordaria com o Marinho.

Dois contra dois! Empatou – disse Luísa.

Mas será que amanhã vai haver empate? – disse Marinho."

(LIPMAN, Luísa,capítulo Quatro, ep. 9, p. 41)

No livro do professor, entre outros temas éticos interessantes, encontramos, neste episódio, propostas de Planos de Discussão e Exercícios sobre o fatalismo, determinismo, liberdade e livre-arbítrio. Estes temas são muito complexos e estão, de alguma forma, sempre presentes em tomadas de decisão, pois referem-se à forma como compreendemos o mundo, os acontecimentos e nossas possibilidades de influenciá-los.

O futuro já está decidido? As coisas acontecem por acaso? Podemos saber o que vai acontecer amanhã? Os acontecimentos já estão determinados ou somos nós a determina-los? Somos realmente livres? O que é liberdade?

A discussão com os adolescentes de temas como estes pode ajuda-los a compreender melhor a própria individualidade e o exercício da liberdade, a relação entre autonomia e deliberação com os outros. O objetivo não é doutrinar, mas favorecer o entendimento de suas opções morais e como tais opções podem ser avaliadas criticamente.

Vejamos um exemplo de um Plano de Discussão e de um Exercício:

Plano de Discussão: Livre-arbítrio

1. Você decidiu livremente vir à escola hoje?

2. Se você estiver com sede, você pode optar por ir ou não beber um copo d'água?

3. Você resolveu ter sede ou teve sem pensar nela?

4. Você já resolveu ter fome?

5. Você escolheu ser brasileiro?

6. Você escolheu a roupa que está vestindo?

7. Você pode escolher desobedecer as normas de trânsito, como atravessar quando o farol está vermelho?

8. Se você cair da janela, você pode escolher não cair até o chão?

9. Você pode ser feliz simplesmente porque quer ser feliz?

10. Você pode ficar doente se resolver ficar doente?

11. Quando você faz alguma coisa de livre e espontânea vontade, isso significa que você não tem nenhum motivo para faze-la?

12. Quando você faz alguma coisa de livre e espontânea vontade, isso significa que você não tem nenhuma razão para faze-la?

13.Você está agindo livremente quando faz alguma coisa simplesmente porque teve vontade de fazer?

14. Você pode não fazer algo que tem vontade de fazer?

15. Você está agindo livremente quando faz alguma coisa deliberadamente?

16. Uma ação livre é sempre uma ação correta? O que é mais importante, uma ação livre ou uma ação correta?

(LIPMAN, M. Investigação Ética. P.119)

Exercício: Fatalismo

1. Uma pessoa fatalista é aquela que acha que o futuro já está decidido. Quem está sendo fatalista?

2. Amanhã será um dia exatamente igual a hoje.

3. O mundo vai terminar no ano 2005.

4. Tenho absoluta certeza de que o ano de 2003 será seguido pelo ano de 2004.

5. Aprendi a aceitar a História. É irreversível. O que aconteceu, aconteceu, e nada poderá ser mudado.

6. O meu destino é ser presidente. Não poderei evitar isso!

7. No futuro, sempre que me olhar no espelho, serei obrigado a ver a mim mesmo.

(LIPMAN, M. Investigação Ética. P.114)

Para iniciar o trabalho, em sala de aula, com a novela Luísa, é necessária a participação no Módulo III – Investigação Ética – do Curso de Formação em Filosofia para Crianças.


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